quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Da série "À provação da luz": A cidade das mulheres de Federico Fellini



                                                          

A câmera se posiciona em direção ao túnel, de formato oval. Vê-se a grama na lateral e as paredes de tijolos encardidos pela fumaça. O túnel parece um dos mais ordinários. Tanto que se não fosse pelo movimento rítmico do comboio, não entraria. Se trata de um trem, ao que tudo indica. A fumaça, o apito, a tração. Por incrível que pareça há a presença do verde nas laterais, típica das paisagens esquecidas (vide "Stalker", por exemplo).

O trem entra com tudo.  Por algum tempo, o que se vê é o que se ouve: o ruído dos metais, o ritmo mecanizado, ininterrupto e sem pausa para reticências, como num adormecer das imagens.  Mas o shot que se segue, acorda. E ele é o mais traiçoeiro de todos, pois dali todo um argumento se construirá. O trem sai do túnel - é o que a imagem falsamente revela. No interior de um vagão vê-se um homem adormecido. Diante dele, uma garrafa de vidro com água e uma mulher vestida elegantemente. O homem dorme sentado, encostando o queixo no peito. Mas ele não dorme como aqueles que vemos no metrô. Ele dorme mediante uma situação irrisória num trem que se agita, num trem que bamboleia e o faz saltar de segundo a segundo. A mulher sentada à sua frente o olha, o observa com um quê de sorriso nos lábios, tal qual uma criança indefesa. Quando a garrafa de vidro está prestes a cair, age como em reflexo, segurando-a a tempo. Parece não estar de todo desconectado, como aparenta. Abre os olhos lentamente como quem se espreguiça e se depara com ninguém menos que...ela. Ela, por onde toda aquela aventura de afetos começará, ela a mulher fetiche, ela, tão somente ela. O sorriso morno se abre. A mulher relança um sedutor olhar e um quê tanto interessado. Talvez ainda mordesse a ponta dos lábios. E antes de qualquer palavra, sai.

Ele é motivado a ir atrás daquele mistério. No corredor estreito das longas horas, há uma miríade de pessoas de todos os tipos, de todas as classes, pessoas que ocupam o corredor tão somente para afastá-lo do mistério. Ele não desiste fácil. Consegue se desvencilhar deles até chegar no que seria um banheiro feminino. Põe-se a observar pela porta entre-aberta, a mulher em frente ao espelho. E com muito cuidado e discrição, entra. Assim que entra, fecha a porta, como bem entendedor de olhares e de mistérios. A partir daí, há todo um jogo de mãos e enquadramentos angulares que, se não fosse felliniano, certamente passaria por brassiano: mãos masculinas nas nádegas femininas, aquela que tudo tem, aquele que nada tem etc etc. E a prova disso são as luzes vermelhas e azuis ao fundo, bem atrás da privada, tal qual estivessem numa boate que sacoleja e chacoalha os aventurados para emoções desfigurantes. No entanto, o trem repentinamente para e um cai sobre o outro, quebrando a magia do instante proibido, tal qual um pai que bate na porta do filho ou filha. É anunciada a chegada numa tal estação. A mulher precisa descer. O homem fica a segurar o desejo nos braços, como se fosse o grande beneficiário. Tenta convencê-la a ter pena dele. Mas ela já conhece aquele jargão e sai.

Ele a segue com mais vontade e, na tentativa de fazê-la ouvir, se delicia ao saber que ela é uma aventura, uma "maluca", como diz, ao constatar que ela desce no mato, no sentido contrário à estação. Ele a segue. Precisa morrer em gozo consagrado, nas experiências televisionadas em altas horas da madrugada. O trem precisa partir, o seu desejo também. Os olhos ficam centrados e o chama a cada momento, a cada segundo, naquele caramanchão palpitante. Quando se dá conta, a razão se foi e com ela, o trem e os compromissos de carreira. É preciso seguir em frente, naquele matagal alto, naquele desejo de amém. Acelera os passos e consegue alcançá-la, junto a uma árvore. Como adolescentes, atuam. Ela o engana ao dizer que há surpresas e pede para fechar os olhos. Mas não há nada, pois o maior interessado é ele, conhecedor de peias, ao segurar seu falo erguido e irrequieto. Ele que precisa de uma ajudinha. Ela o entende, como se o conhecesse e desaparece aos seus olhos. Retoma a busca, sedento, até encontrá-la novamente. Nesse ínterim, acaba encontrando um tal arco ou faixa gigante com alguns letreiros sinuosos. E antes mesmo que pudesse ler, escuta várias vozes femininas alvoroçadas. Ali, bem ali. Sua curiosidade alucina. Ali passa a ser o seu panteão: mulheres de todos os tipos, de todos os gostos e atravessamentos. Mulher-gorila, mulher-futeboleira, mulher-diretora, mulher-intelectual,mulher-sirigaita, mulher-diva, mulher-policial, mulher-cavaleira, mulher-diagramadora, mulher-psicanalista, mulher-frida, mulher-salomé, mulher-amazona, mulher-garçonete e todo uma plêiade de ofícios, nomes, tipos e atitudes conscientizantes e conscientizadoras. Tratava-se de um congresso de feministas, tão e simplesmente. Algo do qual a modernidade precisa, enquanto houver a sevícia e a falta de comunicação, enquanto houver a imobilidade objetificadora em um dos lados.

Elas não estão conversando ali sobre paixão ou amor,mas sobre auto-gestão, auto-defesa, em como aprender a conviver com a solidão. Mas ele quer e por querer, adentra aquele país em busca do desejo perdido. Os homens que antes administravam o hotel ficam atordoados pelo reino destituído. Naquele hall de entrada, há uma confluência de feminilidades e extravagâncias, sobes e desces, esquerdas e direitas, só faltando a quem possa se dependurar no lustre de cristal, naquele palácio de inverno agora conquistado pelas invaginações.  

O invasor adentra. Assiste a toda aquela militância com uma certa satisfação e curiosidade. Ninguém o vê ali. Em cada sala uma atividade, cada qual mais lúdica que a anterior. Cinema e teatro à serviço da informação e do humor. Mas ele contempla, sobretudo, atrás das pilastras de mármore, aquela masculinidade esquadrinhada pela sensibilidade feminina. Para ele está claro: são universos distintos. O leitor arguto, contudo, perceberá que o que há aí de paralelo foi construído, que acima de qualquer brincadeira e fundo de verdade há Thânatos e Eros, e que os adultos sofrem de infantilismo mental. O intruso ali, de repente, é capturado pelo olhar da mulher que o atraíra até ali e que, no meio de tantas outras feministas, o entrega com várias verdades sobre seu machismo descarado. Ele recua, recua, até que a indiferença verta em inferno sem sombra, nem água. Ele cresce de tamanho de uma hora para outra e passa a ser o modelo do ódio delas, a configuração das certezas delas.

Numa das salas daquele palácio, um silêncio o surpreende. Ali, uma mulher-ideal o seduz, chamando-o para patinar. Babão, segue. Lá descobre a desgraça: que está entregue à elas e que tudo ali conspira contra seus pulmões. Um mundo de mulheres patinadoras o cerca, girando, girando, e ele que cai e não consegue sequer ficar em  pé, como um velho indefeso. É então empurrado maldosamente pelas escadas. Malévolas, todas. Ao levar o tombo, sente-se num porão e pela sombra uma bruxa o convida para levá-lo à estação. Ela troca de roupa no biombo e logo se presta a colocá-lo na moto.  No caminho, percebe que se meteu numa furada mais uma vez, quando ao chegar numa plantação de couves, é conduzido a entrar numa das estufas e ser forçado a ter relações com ela ali, com aquele feminil consumido pelo tempo. Não, aquela ele não quer. E ela o deita num local, ao lado de um ursinho de pelúcia. Ele tenta se desvencilhar até que alguém o surpreende. Uma senhora fica invocada com a situação e se intitula mãe da bruxa. Depois dessa cena televisiva, a bruxa ordena que uma jovem ali próximo, o leve até a estação. A jovem, de pouco papo, o conduz até um carro, repleto de moças jovens. Sente-se melhor assim. No entanto, ele há de convir que as aparências às vezes enganam. Embriagadas, putas, e com um jeito meio punk, elas o infernizam com cigarros, música eletrônica em alto volume e outras extravagâncias dos rebeldes sem causa. Mais à frente encontra um outro carro e repentinamente parece animá-la para algo mais atentador: a corrida. Quando ficaram prestes a se esborrachar, ele desiste o solta do carro. Os carros o perseguem, acendendo as luzes, num terror circense.

A saída é dada pelo palacete de um tal conquistador de mulheres, que torna a atirar contra os carros. Ele é uma espécie de leão, Zeus a remexer seus bigodes finos de relâmpago - olhos largos, cristalizados. Ele ali parece encontrar um amigo, um ideal de amizade. Ele mostra toda uma coleção de presentes exóticos ofertado por suas pretendentes, ao lado dos seus três cães de caça. Seu nome deveria ser caçador. Ele, de robe, o alimenta com fantásticas históricas de conquistas. 1000 mulheres, segundo ele.

Ele é obrigado a ficar em sua mansão. Aproveita para explorar a casa e se depara com um cômodo gigante com uma série de painéis instalados e um botão vermelho. Aperta o primeiro. A imagem da vítima aparece e, abaixo do botão, um som capturado por ele, no momento do enlace. Isso o diverte e estimula. Se Zeus aparecesse ali novamente, seria capaz de lhe dar um abraço por ter realizado um sonho de que nunca seria capaz de realizar. Há centenas e centenas de quadros de todos os tamanhos e mulheres para todos os gostos, muitas inclusive glamourizadas, como atriz de cinema. A luz que projeta a imagem só é disparada com o botão vermelho. E há quadros de vidro cobrindo toda a parede, tal qual as galerias inglesas de Conversation Pieces. Mais adiante se depara com uma mulher. É a sua mulher, que de súbito aperta um botão acionando todos os botões simultaneamente. Juntas, dão a impressão de qualquer coisa de perdido, qualquer coisa de incompleto e até inútil. Talvez nunca possa dar-se ao trabalho de colocar as escadas para apertar aqueles botões individualmente.

Ele se desculpa por ter perdido o trem. Sua mulher tem um rosto pálido, boca vermelha e parece representar assim a mulher-casada, tudo aquilo que as feministas não querem para elas. Nervosa e infeliz, ele tenta encontrar justificativa (pois sempre há uma resposta para suas perguntas). Zeus aparece descendo as escadas, com um ar de vitorioso e o convida para uma suposta festa oferecida para celebrar o 1000º caso. Ele fica encantado por estar ali com aquela pessoa que muito o estima e, ainda por cima, ao lado de sua esposa, que estranhamente o esperava ali (talvez nunca tenha se perguntado).

Ele se apruma para o tal aniversário. As empregadas fêmeas o conduzem até uma determinada senhora, a única mais velha, que poderia ser, inclusive, a mãe de Zeus. Eles conversam sobre coisa qualquer até que duas mulheres exuberantes, a tal mulher-ideal e uma acompanhante o sequestram, vestidas como se participassem de um desfile para escola de samba ou de algum musical da Broadway. (nunca Broadway e o carnaval estiveram tão próximos!)  Ele se sente Fred Astaire no meio delas, a segurar a cintura delas, como num grande show. Elas o conduzem à cama gigante. O desejo dele é maior, apesar de conseguir enxergar no exterior da casa a sua mulher lamentando aquela cena.

A mulher-ideal, de largos seios e sorriso escaldante, antes de conduzi-lo para a cama, o orienta dizendo que nada daquilo parece ser o que é. Mas ele não quer se preocupar com passados ou futuros. Seu desejo de mão-única é por presente e pelo presente, por mais que haja tempestades e redemoinhos. Ele se debate com as pernas, como uma marionete pedinte que quer aquelas duas bundudas. Ele quer as mãos dele naqueles platôs, ele não quer saber de nomes ou vida, por ora. Mas elas não duram muito tempo. A esposa dele chega e parece estar interessada em algo mais e ele, naquela altura, não quer saber de nome ou vida conjugal e tanto que, por mais que ela fique em cima dele, sua opção torna-se um protesto: virar na cama para o outro lado. Ela também vira-se para o lado, em choro. Ele escuta algo debaixo da cama. Rola, cai sobre o tapete fofo e descobre duas ou três maçãs ali; duas delas mordidas. Ele torna a mordê-las com vontade, pois é o que resta daquela frustração.

Abaixa-se e segue agachado até chegar num determinado local amplo, numa espécie de tobogã, coberto por luzes amarelas, num quê deveras circense. Á distância, consegue enxergar três homens efeminados a conversar sobre aquele reality show de que participam, de Truman. Nós, espectador, não podemos negar. E ele, de pijama, escorrega num sem fim de curvas e caminhos. De repente, fala-se da vida dele, da infância que teve, dos erros cometidos. Ele é a atração do momento, ele é o Marcelo dos filmes do Walter Hugo Khouri, a devassar o ego e o id.

Mas como toda a festa, uma hora acaba. E por alguma razão, antes mesmo de terminar de descer, as luzes daquele parque de diversão se apagam. Todos vão embora. O céu se torna cinzento, sem aquela iluminação. E o silêncio apavora. O que resta num fim de festa? Um balão inflável sob a forma da mulher-ideal. Ele quer desaparecer nele, como os japoneses com as bonecas infláveis, mas a própria mulher-ideal não o deixa e o estoura. O riso fresco e promissor verte-se numa maquiavélica fisionomia, quando o ar sai.

Ele cai. Acorda. E lá está ele no mesmo vagão, com a garrafa de vidro na bancada e a mulher misteriosa a sua frente. Ela o olha, firme. Antes que possa pronunciar qualquer palavra, bem ao lado, no mesmo vagão, sentam-se as mulheres ideais, com um riso frouxo estampado.

Surpresa o filme começar assim, num túnel tão vasto e terminar na mesma maneira como começou: túnel oval, verde grama ao redor, como numa história de não ter mais fim. Quando imaginação e desejo se acasalam qualquer tempo é nenhum.       

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Da série "À provação da luz": O homem com a câmera (Vertov, 1929)






Debaixo das cobertas, o corpo marca a condição da sombra. As mãos embaixo da cabeça, os joelhos dobrados, entregues. Vê-se a respiração de um. Os gestos inconscientes de outros. Gradativamente, o dia começa a sacudir. Há homens de jornais à mão.  Homens de uniformes. Crianças recém despertas por suas mães. A maquinaria inventada, começa a girar, girar e girar. Pedaços gigantes de ferro trafegam pelo quarteirão. O ritmo ainda é lento e morno, mas em questão de minutos, os gonzos extrapolam e não é mais o homem quem fala, em sua miniatura. Uma orquestração começa a se formar. Carros, pessoas, trens a amontoar. Apontam ruídos, gestos entrecortados e, por vezes, desmesurados. Badalam os sinos de hoje e do amanhã. Parece não haver mais tempo para ternuras, com exceção de algumas arritmias diminutas e esquecíveis ao olhar de quem ali habita; Onde estão os estrangeiros, afinal? Seriam todos também "mini-turistas", nas palavras de Bioy Casares?
Gritam os meninos vendedores de jornal, o guarda de trânsito se imposta, as mulheres caminham com as bocas ao alto e aquelas mais senhoras não tardam a desabafar na esquina sobre qualquer coisa de moralmente inaceitável.

A máquina passa
espera o homem

E a partir daí só se vê braços e pernas, pernas e braços. Cada perna em busca de seu quadrado - cíclicos movimentos. O bonde parte. O trem parte. O homem sobre o volante trabalha. Roda a história dos r's e dos s's. Peças por todo o canto, em funcionamento. Mas a câmera parece captar mais do que isso. Da mesma maneira que capturou o sono dos miseráveis que precisam acordar para ter que trabalhar por algo, ela captura também concomitantemente a mão delicada depositando um número sobre o papel, a mesma mão de ossos e carne que manipularia metais e ligas metálicas numa siderurgia. Naquele vulcão artificial, Hefesto trabalha a ferramenta e obtém notável engenho, naquela altura já normatizado.

o sinal toca


Final de semana, dia de praia. Divertimentos dos mais variados níveis. Amontoado de gente e algum braço teima a proteger o rosto da incidência do sol. Perto dali, o pulmão, a cada braçada, pratica sua penitência. A água está fresca, o calor palpita pelo corpo. Mergulha o gesto em tranquila liberdade. E tanto que a nudez pouco transparece, como se naquele momento pudesse ter alma de índio. Passeia o cachorro em sua coleira, o cotovelo sobre a murada, a boca sobre os lençóis.         



O homem passa, 
espera a máquina



Há também modalidades desportivas, como o jóquei. Pessoas torcendo por algo que possa acreditar. Não há tédio ali. O lazer parece compensar o ritmo do trabalho, em engrenagens proporcionais tão doces quanto os momentos da cabeça sobre o travesseiro - o que mostra que somos feitos também de vento e curvas à baila do movimento de ida e vinda, ida em vinda, prefixo 'vi' sufixo 'da'.

Numa determinada sequência o sol aparece, brilhando sem pretexto algum. Os dias seguem em pau a pique. Que os homens fiquem com suas certezas rodadas a milímetros de imagem. Será unicamente o que lhes restam?

domingo, 8 de outubro de 2017

Da série "À provação da luz": Barzakh (Mantas Kvedaravicius, 1976)

O indissolúvel dos dias em papel celofane que molha e não rasga. À distância, uma figura move-se em direção ao olho da câmera, que nada vê. É insuficiente qualquer definição que não seja a do vulto. Para além do cinza, o verde preenche as orlas, dando sentido às retas, que paralelas formam galhos e folhas. Duas árvores. Uma mais na frente e outra no fundo do quadro. É espessa a paisagem, apesar das sombras, trazidas à contraluz das copas largas. Alguém se situa entre elas. E essa figura caminha  dizendo algumas frases que mais soam a um credo ou apito encharcado. Ouve-se a precipitação em formato mínimo, réquiem de vespas, de pequenas gotas. Um trajeto que se encerra nele mesmo.
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 Sobre a mesa, alguém maneja um punhado de papéis timbrados. Duas mulheres mais velhas escutam, com olhar cabisbaixo. Uma delas segura um lencinho. Um menino observa tudo com um certo tédio no olhar. Ou talvez estivesse contabilizando alguma tristeza com a maciez da pele. Como saber? Lá fora um dia nublado, com muitos escombros.
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As mesmas senhoras jogam búzios, na tentativa de acercar-se de um futuro promissor. “Só tempo pode dizer”,repetem. Elas percebem que passado cinco anos, a esperança angustia pelo simples fato de se acreditar estar a um passo. A casca de tântalo parece fresca. Quantas mais existirão?
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Um homem mais velho prepara o que comer. Posiciona duas tigelas na mesa, ou melhor, na quina da mesa. Não há espaço para mais do que isso. Na mesma mesa, uma televisão cospe notícias. Ele mastiga com força. Atrás dele, uma pequena cortina vermelha e velha separa o pequeno cômodo do corredor e da porta de saída. O homem olha e morde. Momentos antes ou depois, teria reclamado da navalha sobre a pele. “A cicatriz dificulta o corte”, dizia, manejando a navalha perante o espelho respingado.
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 Festa. As mulheres segurando os vestidos. Os homens dando pontadas pra cima com a ponta das botas. Crianças,idosos, jovens e mães dividindo a atenção entre os pratinhos descartáveis e o movimento mântico dos olhos na dança. Finais de semana da alma. Mas nem tanto. Há algums metros dali,  um homem usando colete, festeja dando rajadas para cima, com sua arma. Ele mesmo só mostra presença em um dado instante. Aos outros, cabe a ele segurar no peito, a capacidade de dar ou tirar a vida. A alegria do soldado é turva perante a vontade dos músculos que arrancam os olhos da carne.  
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Duas mãos enrugadas certificam-se de uma certa documentação. Presos por clipes estão as fotos em preto e branco de um jovem esguio, com roupas escuras. Ele olha a câmera de maneira quase ingênua. Entre uma folha e outra que se acumula, as mãos seguem ordenando, deixando marcas inclusive das digitais nas partes mais saturadas de preto da fotografia. Ao fundo, letras garrafais em cirílico, ordenadamente postas linha após linha. O branco amassado da folha se agarrando à espessura das leis de um grafismo escuro e dicionarizado. Gritam as mãos. Mas para que possam ser ouvidas precisam pedir, como quem entregando um ticket na entrada, na espera de que a comida seja servida, ainda que isso nunca aconteça de fato.
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Corredores vazios e esburacados. De cômodo a cômodo, alguém conduz a leitura. Há indicações de que o tempo passou de maneira crônica por ali. Vê-se alguma pichação, uma superfície raspada em riscos fortes. Marcas de letras, palavras. Hiatos de não sobrar mais. Mais tarde, esse alguém se revela como um sobrevivente daquilo tudo. Expõe seus dentes de metal, a cicatriz na fronte direita, maxilares que crescem assincrônica e nevralgicamente na exposição daquilo que não se pode dizer. Ele deixando de ser matéria-prima do luxo de outros, ele finalmente alcançando a voz que lhe resta e que não foi silenciada sabe-se lá por qual milagre.
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Dia de ramadã. A cidade está em ruínas. Fachadas foram deslocadas de lugar, portas voltaram a ser janelas que batem e rebatem contra o vento. Nas ruas, mulheres desfilam com roupas escuras. No interior dos recintos, entretanto, a reza é forte. Sobre o tapete persa limpo, mãos torcem o calendário da fé. Não há indícios de maior tranquilidade do que a daquele ambiente controlado, caprichado com plantas ornamentais.

Os mundos dividindo-se. As saídas estreitando caminhos. A pergunta que não quer calar: “Se os ombros carregam noites mal dormidas, como se faz para espichar?”

Nuvem sobre nuvem.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Ex nihilo

Uma certa pessoa olha o mar. Medita. O vento frio a faz querer desistir. Põe o casaco sobre si, mas minutos após se levanta. No final da tarde, estar em frente para o mar faz com que qualquer sombra tenha um gesto de adeus.

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Quis me contar uma espécie de história sobre um tal coco que despenca da palmeira. Disse então que metáfora melhor não existe, apesar do contraído desejo incidir na revelação do enigma. É que em momentos de ausência, o mínimo do outro é prêmio.

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Um avião libera o cansaço do meu corpo, ao entender que presença é aquilo que vem de encontro quando se quer. Mas esse tipo de remanejo só é possível quando se tem para fora um pouco do corpo pisoteado. Porque não havendo pausa ou intervalo algum nessa dor, há que se encontrar algum lugar para se morar, um lugar que se possa dizer corpo.

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Quanto mais eu vivo, mais me perco. Quanto mais me perco, mais me reencontro. Caso contrário não me perderia mais. Parece lógico, não? Mas talvez tenha que inverter a ordem: encontrar, para então se perder. Se colocar o encontro no lugar da perda, dificilmente terei a sensação de não me encontrar.
parece óbvio também, não?

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Certa vez vi “Girimunho” nascer perante meus olhos. Encarnei um tipo de vida interiorana, de gente lascada em pedra e terminei vislumbrando uma argila de cunho ardiloso. Não se trata de uma indiferenciação. Se limitação é a palavra, a maleabilidade provinha paciência ao gesto e ousadia às ações. Então, por que não espraiar um pouco do mântico? Aliás, como disse a protagonista em tranquila risada ao falar dos peixes que só ela conseguia ver: “a gente não começa e nem acaba. A gente não é nem velho e nem novo. A gente vive”.

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Se os anos pudessem falar pelo que falta, não teríamos pés para ir e voltar.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ebúrnea

Subia as mãos para cima da cabeça, levando consigo um punhado de cabelo. Com três voltas fazia um coque, expondo o liso do pescoço ao frio que a amordaçava. Depois colocava os cotovelos em cima da mesa e agia, como se saltasse. Tinha que ser precisa naquilo que oferecia. E isso não por profissionalismo. Mas para evitar o risco de cair em tédio. Não, o tédio não poderia lhe possuir de novo, a ponto de recatá-la numa cama 3x4 de insônia e espera.

No entanto, o silêncio a fazia bocejar alto e em bom som. Estava cansada daquele constante arrumar de malas, das viagens imperdíveis por países desconhecidos, da paz em formato de liberdade.

Há de se convir que tinha traços de grande formosura, que conhecia a harmonia e a ambição por perto. Mas aquilo por si só não bastava. Precisava enturpir-se de cigarros e punk rock, para que pudesse dizer de uma hora para a outra, baixinho: “de que adianta tudo isso?”.

Certa vez confessou diante do espelho um segredo. Ao apalpar as bochechas rosadas com a mão suave, observou que as unhas deixavam marcas na pele por alguns segundos. Unhas que faziam doer uma careta no rosto, os lábios de vermelho natural em posição oscular. Ela percebeu o quanto era ridícula e boba. E que a bobeira a salvava de coisa mais grave.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Desencontros

                                                                 still de Muito além do jardim

Amarrota a gola da camisa de brim e já é quase um começo, embora nem sempre haja espaço para o pleno amanhecer: aquele imaginado e idealizado. Às vezes é necessário um cadafalso para fazer-se desperto ou voador. Quem sabe a sorte esteja mesmo na percepção de que as peças nunca estão postas na direção de nosso olhar? Porque quando examinamos mais de perto, vemos que o travessão antecede a sombra, marcando a base de todas as esperas.

Esperam vagabundos, cafajestes, difamadores, cínicos, vaidosos, egocêntricos e plêiade mais. Esperam pelo que possa ser ideal,imortal, prazeroso. Por isso cruzam as mãos umas sobre as outras quando estão sós, tal qual cruzassem os braços sobre o peito. Quiçá soubessem o calor de uma mão sobre o ombro do outro...seria esta a tal noite de núpcias do instante com a eternidade?

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Da série "A provação da luz": Notícias de Casa (Chantal Akerman, 1997)





Numa viela aberta, as paredes são becos encardidos e fétidos. Garrafas, latas, caixas de papelão, canetas, cacos de vidro,cacos de vaso, cascas, restos e lastros. A lixeira verde é enorme e acumula esse amontoado de coisas que a cidade produziu e produz. À distância, um carro branco dobra a esquina em direção à câmera. Estamos na "Big Apple", em meados dos anos 70, época dos black power, black panthers, disco music, "Embalos de Sábado à Noite". Época da marginália e da violência estatal; época da corrupção e do crime à queima-roupa. Um tempo que não passou.

É final de tarde. Os faróis do carro iluminam parcialmente as paredes. Para cima e para baixo, a carcaça do veículo segue o ritmo da suspensão. Alguém segura o volante com força. Dobram a esquina quatro homens com sacolas e itens recém-adquiridos. As vestimentas proporcionais ao humor.

Segundo quadro. A câmera captura a total ou quase ausência de movimentação humana. O semáforo pisca o amarelo por repetidas vezes. O vento carrega um pedaço de plástico. Um carro azul surge no ângulo da câmera. No horizonte,começa a se desenhar o poente. O que esperar de uma confissão tão sincera?

Não ausência de uma finalidade discursiva, há apenas uma simples e espontânea maneira de capturar o cotidiano, como Lumière outrora teria feito. Uma voz in off se descortina. Ela é frágil, baixa e educada. Inicia a leitura da carta íntima que recebe de sua mãe. Nela há um emaranhado de afeições e delicadezas em torno de questões que não nos dizem respeito.  Preocupações cotidianas tão triviais e banais que geram simpatia a quem a ouve. E isso porque aquele que vê pela câmera-olho se faz de única testemunha. O privado se mistura ao público, como se indissociáveis fossem.

No metrô carregado de pessoas, próximo a faixa de pedestres, entre um abrir e fecha de sinal, pessoas entrecruzam presenças e ausências. Esse desdobramento das intimidades se dá em variados lugares: na presença de um público aparentemente indiferente ou daqueles que se intimidam pela câmera, tomando a ação distraída da filmagem pelo lado pessoal, tal qual estivessem num desejo por apagamento: por exemplo, a insistência do senhor de roupas verdes que insiste em esconder a palidez.

Por fim, resta na mente, o reflexo das luzes num dia de chuva. O silêncio. A solidão ruidosa de alguém que, afastado de casa, recebe algumas frases de notícias sem conseguir retrucar na mesma moeda. Porque para um estrangeiro o silêncio é revestido de fascínio e medo, pois a rotina daquela cidade faz apagar as pessoas. E apaga porque pensam "bom dia", "boa tarde" ou "boa noite" como forma de, com a educação, tapear que está sendo incomodado, uma vez que seria infinitamente melhor não ter quem pudesse perceber naquele momento. Porque não convém que algo possa atrapalhar seus planos de lucidez e idealidade. A liberdade é assim usufruída, numa tal angústia e ansiedade da existência que garante a normalidade do dia-a-dia.

A cidade é imunda na proporção de indivíduos que precisam pagar pelo que sujam. E nem assim o faz. Na cidade há algo muito mais importante do que o dinheiro circulando em cada esquina. Há o número, a numeração, o incômodo. Incluindo a régua dos estereótipos. O que dizer? Não dizer, passar, como quem não vê nada por estar olhando para onde pisa.

A cidade que é feita de falta precisa ser preenchida pela cor e ornamento. As crianças brincam em meio ao hidrante estourado, o metrô está pichado e a prostituta marca os lábios com batom barato, comprado de um usuário de heroína, num beco. Não há como dizer isso tudo para uma mãe que fala de pudins o tempo todo. Chantal entende certas contradições e certas impossibilidades.

No silêncio onde cada imagem precisa ser negociada há um desejo pelo distanciamento. É preciso que finalmente a cidade diminua de tamanho, para que de pouco a pouco seja vista como uma lembrança, um registro fílmico de uma experiência que passa. Chantal joga Excalibur na água. Avalon floresce em bruma e melancolia. Hora de retornar para o velho enlace. A realidade novayorkiana, afinal, não precisa dela.


 


"(...)Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é."

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterônimo de Fernando Pessoa   

terça-feira, 20 de junho de 2017

Da série "A provação da luz": Séraphine (2008)




Seuil, 1914. A lua pôs-se a brilhar lá em cima. É possível ver o reflexo na correnteza de um rio. Noite mística. Séraphine desliza as mãos pela superfície de um pequeno afluente e consegue tocar os poros da vegetação ribeirinha. Solfeja qualquer nota delicada na boca. O gesto é de carícia. Se a mão agarra qualquer coisa, logo solta. A natureza passa por ela e ela passa pela natureza, à revelia de tudo e de todos.

Quando o dia começa, Séraphine cumpre as obrigações em silêncio. Foi essa educação que a senhoria lhe ensinou. E para não retrucar a coisa alguma, havia aprendido a esfregar e limpar o chão, as janelas e as roupas. Quem sabe anos, muitos anos havia passado naquelas condições de simplicidade e humildade servil. A senhoria lhe pagava centavos e ela fazia segundo as regras do jogo. Aparentava uns quarenta anos, mas ao certo ninguém sabia direito. Nem mesmo a madre superiora, sua mãe adotiva, talvez soubesse. Séraphine era mais uma, dentre as muitas pessoas que circulam prestando serviços à sociedade. O corpo parecia flácido e moído pelo tempo. Andava revezando os passos de um lado para o outro e talvez, quem saiba, arrastasse os pés no chão, como as pessoas de mais idade costumam fazer. Os olhos azuis, o rosto largo, os cabelos desgrenhados, em referência à cultura européia industrializada do século XIX. O chapéu preto sobre a cabeça, o xale azul a cobrir os ombros e uma cesta na mão direita. Era esse o seu uniforme cotidiano, tipificado na sua condição social. A figura de Grenouille trabalhada por Patrick Süskind em "Perfume" sobe à cabeça:

"Grenouille trabalhava feito um cavalo. Modesto, quase um escravo, efetuava todos os serviços subalternos que Druot lhe ordenava. Mas enquanto ele, aparentemente idiota, remexia, manejava a pá, lavava garrafas, limpava o local de trabalho ou carregava lenha, não escapava à sua atenção nada das coisas essenciais desse ramo de atividades, nada da metamorfose das fragrâncias". p. 186

Discreta e silenciosa, Séraphine não era afeita a conversas. Dizia apenas o necessário, como havia aprendido com a senhoria. E a olhar para o chão. Assim, não se manifestava sobre o caso que o filho tinha com a empregada ou sobre qualquer outra particularidade. Mas Séraphine, assim como Grenouille, não era idiota. De fato, aquilo pouco importava. Ela gostava mesmo era de sair pelo campo, em busca do vento nas folhas das árvores. Tinha um apreço especial pelo vento da árvore que ficava numa elevação. Chegava a subir pelo tronco quase até a copa, só para se sentir inteirada com aquele momento tão seu e de mais ninguém. E mais: fazia de tudo para descalçar as botas, numa espécie de compensação pelas amenidades.

Séraphine é então indicada pela senhoria para atender os novos inquilinos da casa. O andar de baixo é alugado por dois estrangeiros que falam alemão. A casa aparenta não ser muito larga. As paredes descascam, os ladrilhos despencam e o jardim está com a grama alta. Apesar dos apesares, a casa tinha Séraphine por perto, que além de cumprir com as obrigações domésticas, servia a refeição e o chá matinal. Na primeira vez que encontram Séraphine arrumando a cozinha, tomam um susto. Não sabiam que ela estava inclusa no pacote.

A mulher quase sempre viajava e o homem parecia um pouco ocupado na escrivaninha. As pessoas daquela cidade pequena logo suspeitam deles. O que queriam ali naquele povoado? Seriam dois espiões do governo alemão? O dono de um dos estabelecimentos escrutinava ao menor sinal de diferença neles, algo que pudesse segurar o ombro do vizinho para apontar com o dedo bem alto. "Por ali!", seguido por uma horda de pessoas carregando archotes ou lamparinas cidade adentro.     
     
Mas uma coisa eles não sabiam: que Séraphine tinha seus mistérios mais profundos. Ela fazia a coleta de materiais esdrúxulos, experimentava diferentes combinações. Sim, ela se sentia imbuída de uma obrigação secreta e mais forte. E em meio a essa obrigação, não tinha tempo para distrações. Por isso, pendurava um cartão na maçaneta da porta indicando que não quer ser perturbada. 


E justo ali, por trás daquela porta estreita e mal pintada, batia o martelo na certeza dos tons, na simpatia das formas, na reconexão com o mundo. As pastas feitas a partir daqueles substratos eram misturadas com a ajuda de um pincel sobre a superfície do papel ou madeira. Por não ter espaço suficiente em seu cômodo, pintava à luz de velas, no chão. Essa espécie de ritual com a arte lhe garantia um prazer comedido, quase beatífico, fazendo com que compromisso com a obra fosse total, até o último suspiro.

Pequenos quadros saem desse contrato com o divino. Consegue retratar aquilo que seus pés um dia lhes puseram em contato e borrava, borrava para que pudesse dar espaço a pingentes adornos. Era assim o seu insigne e particular gozo com o mundo das intensidades em cores.

No entanto, Séraphine não podia ficar em paz por muito tempo. Um dia alguém calharia não apenas de saber, mas de dedurar (quem sabe a proprietária a quem devia dois meses de aluguel? quem sabe o pároco da aldeia que nem aparece na estória?). A senhoria ficou logo sabendo e, como tal, foi explicação. Assim ela o fez, com um mistura de surpresa e sorriso nos lábios. Ela poderia finalmente confessar a alguém o seu amor.

- É por um acaso um pessegueiro?
- Uma macieira, senhora.
- Não se parece.
- A meu ver, parece uma macieira - retruca o filho da senhoria.
- Os tons não se parecem com os da macieira. Onde já se viu uma macieira desse jeito?
- A meu ver, é uma macieira - reforça o filho, como em tom de provocação. 
-  Não, não é possível... Seráphine? Ainda está aqui? Volte ao seu trabalho!

E, por fim, escondia o quadro atrás do sofá.

Por alguma razão, alguém calharia também de informá-la que aquele alemão era um famoso crítico de arte. Foi uma festa. A senhoria quis chamar seus amigos particulares ou aqueles que conseguiam reproduzir um gosto em comum e logo veio a ideia de convidá-lo para um jantar. O fato é que não sabiam que o interesse daquele crítico estava em Picasso e na arte moderna, passando ao largo da arte decorativa que tanto agradavam seus olhos. 

Ele não aguentou tanta mediocridade e precisou se retirar.  Na saída bateu os olhos no quadro escondido, sabe-se lá porque. Ficou extático.  E mais extático ainda quando soube que o artista era ninguém menos que Séraphine, a senhora da faxina. É verdade que já havia percebido algo de especial nela, em especial num momento em que ao perceber sua tristeza diz:

- Senhor Orzt, o dia em que você estiver triste, converse com as árvores, os pássaros e as folhas! Logo sua tristeza vai embora. Eu não sei ficar triste. 

No dia seguinte foi ao encalço dela. Tentou uma maior aproximação e ela insistiu nas distâncias. Ela estava ocupada na limpeza. Ele quis mostrar a importância da obra.

- Senhor Orzt, pare de zombar de mim.

Uma pequena sinfonia se estabeleceu entre os dois. Orzt tinha já comprado algumas obras e prometeu exibi-las numa exposição em Paris. No meio desse processo, a guerra começa. Ele precisa retornar para a Alemanha. Havia que cumprir com uma certa obrigação, a mesma que faria com que alguns franceses começassem a lançar ovos podres nas janelas da casa.


Adeus.
Adeus.

De cabeça baixa, Seráphine isola-se na pintura. Seu campo de atuação não se restringe mais ao seu diminuto quarto,mas a espaços destruídos, incluindo a casa da senhoria, agora abandonada por completo. Todos aqueles que alguma vez havia erguido o queixo, aprendia a sentar e a se encolher. 

-- 

13 anos depois, Orzt morava numa casa de dois andares, no sul da França. Dividia o espaço com sua irmã,a quem acompanhava sempre e um rapaz tuberculoso que nas horas úteis pintava.
compartilhava a cama de Orzt, tal qual Tadzio possivelmente teria feito, na cama de Aschenbach.
Tudo com o máximo de discrição para com as três empregadas francesas que cuidavam dos vários cômodos da casa.


Esse tipo de preocupação refletia na condição de vida deles, agora mais abastada. Com o cavanhaque branco, Orzt se mostra preocupado com a saúde do rapaz esguio, bem como com os rumos da autenticidade na pintura contemporânea.

Séraphine era tida como um estilhaço do passado, uma personagem que a belle époque lhe trouxe, silenciada pelas circunstâncias históricas. Ele talvez tenha aprendido que nesse ramo é necessário seguir em frente o ofício, pois a relação humana se dá pela cumplicidade e estavam cúmplices, naquele instante, o rapaz e ele.

De repente, numa dobra de jornal, descobre uma tal mostra da prefeitura com artistas locais da cidade.  Naquela mesma manhã ou em dias anteriores, a sua irmã lhe havia recordado. Coincidência? A lembrança se faz oportunidade. Os olhos vão, curiosos. E ele caminha pelo espaço apertado da galeria como se estivesse atrás de algo quente. Foi então que a redescobre tal qual Fênix, mais madura no estilo. Estava claro que era ela naquela parede e que ela havia crescido em aura. Se antes havia um grau de semelhança com a natureza morta, agora havia uma diferença sutil, havia sensação. Imiscuía na forma analogias afetivas de fino púrpura, em curvas acentuadas e polens delicados. Havia substrato ali. Havia vida.

O crítico não tarda a procurá-la, no mesmo local, subindo a escada à direita, no fundo do corredor escuro, porta branca e pequena. Ao abrir a porta, ela não se surpreende, como premeditado estivesse. A santa lhe havia contado tudo! Ela comunica ter abandonado os serviços domésticos por inaptidão. Seu corpo não mais corresponde às demandas exigidas pelo senhorio. Desde aquela exposição, parece estar conseguindo viver da sua obra.

E ele a conduz ao mecenato. A partir daquele momento ela desembesta. Quer o vestido, a casa e o carro.A devoção que ela tinha pela santa era total. A filha da vizinha torna-se amiga e dama de companhia.  As portas todas se abrem, tal qual se tratasse de um pacto com o divino. Interpreta o direito como uma benção, um direito para a fama e importância, usufruindo de uma necessidade que precisa então subir mais, brilhar mais, virar estrela. 


Mas o tempo passa. Já é 1929. Há uma crise mundial em percurso que a santa não conhece. Nesse ínterim, o rapaz adoece novamente. Orzt não consegue mais prometer a ela, logo naquele momento de ascensão! A proprietária que mora no andar de baixo, percebe que Séraphine não tem mais cantado, o que significa que não tem mais pintado. Entretanto, ela a escuta murmurando, cochichando qualquer coisa.

Num domingo qualquer, Séraphine sai vestida de noiva,a distribuir presentes a todos. Leva consigo talheres e castiçais prateados, comprados recentemente para enfeitar a sua ascensão. Já que não há tempo para ascensão, talvez quisesse retribuir àqueles que não a queriam. A cada um. Ela é assim internada num leito coletivo, por onde passa a respirar sob o testemunho de todos, inspecionada por enfermeiras e médicos de plantão.

Séraphine, estrangeira do mundo, está sendo silenciada. Há fantasma e dor por toda a parte. Durante uma noite, alguém se põe a mexer no seu cabelo. Ela grita, ameaça bater,morder e acaba sendo conduzida a uma camisa de força. Sua dor é de uma fissura tamanha, de um vazio como nunca encontrara antes e sob o qual nada é capaz de fazer.

Orzt reconhece tenta ser gentil na escolha de um quarto particular, próximo a uma janela e uma porta. Séraphine, por alguma sorte, assim que adentra o quarto, pensa na porta. E ela se abre. Lá fora, o vento a chama outra vez. A árvore enorme que antes a acompanhava em mistério e sutileza está logo ali, ao seu lado. O dia é branco, imensamente branco.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Da série "A provação da luz": Massa estanque (2016)


MASSA ESTANQUE from Nayra Albuquerque on Vimeo.



O curta começa com uma expressão morna tanto sonora quanto visualmente, como se se tratasse de sonhos, mas depois surge um desequilíbrio: as pessoas se estagnam, viram zumbis a céu aberto. E elas marcham, indiferentes, rumo ao nada. Elas estão entupidas de nada e nem espaço chegam a ter para o vazio, para o zero que reconecta um ao outro. E tanto que sangram nas mãos, nas vestimentas e utensílios. Há quem observa a marcha acontecendo do outro lado. Não percebem que é também com eles. 
A visceralidade do noise vai criando tensões bem interessantes. O desfecho é dos melhores, com o vira-lata se alimentando daquilo que sobrou. Experimental, mas bem conciso.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do amor



                                                         Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962



1 - partitura "valsa para quatro ventos":


Lô. diz a  _Sim_Não_: Sim

_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Não
Lô. diz a   _Sim_Não_: Não
_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. e _Sim_Não_: São


 (pausa)



 pésjuntos                                                                                               p  e  s    
                  
                          p e s 

                                                                     pésjuntos

                     
                        p e s


                                  p   e   s



                                                              p  e  s


                                                                                                           pés_juntos


juntosèp
                                                           pé_juntos
                                                                                                             


pésjuntos



Refrão: Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló / Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló




Velada, a valsa se alimenta de prazeres inconsequentes, prazeres que se projetam laminados, de modo a embeber a superfície caiada do corpo-a-corpo. Com que sabor virá?  


 2 - brilho

- Porque assim a força do hoje-agora, futuro não-mais, poderá reagir de maneira favorável a escapar ou pôr chifres onde não se é esperado ter.
- Eu sei. Pareço ter pouco brilho.
- É que ainda falta você cruzar melhor com o acaso. Aí quando se levanta, o brilho aparece. Assim sentado, a sombra aparece.
- Sei...
- Não sabe que o amor suporta o ódio. A felicidade, a ignorância. O encantamento, o erro?
- E eu preciso de tudo, menos de razão. Alguma razão de que mereça?
- Desrazão com uma pitada leve de amor próprio. Nunca chegou a se sentir?
-  Apago a luz, todas as vezes.
- Alguma vez alguém te forçou a querer?
- Nunca sentiu culpa por algo?
- Os anos que te aguardam parecem querer dizer mais.
- Não sirvo para eles.
- E por que perecer pela fragilidade, se teu corpo é janela e porta? Nunca saboreou a profundidade da pele? A transparência do vaso?
-  Por isso desenho. 
- Veja só! Teu brilho está no alcance de suas mãos. Basta arrancar a pesada cortina de teus aventais, para que a luz possa contaminá-la de traços firmes e diagonais.  
- ...

E mais uma vez a alvorada se fazia chance. Se a vida comia do jeito que comia, havia um corpo que respirava à revelia do mundo exterior. Seria ele finalmente possível?


Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962


3 - dor

Havia me dito que se tratava de algo intratável e inafiançável. Não acreditei. Ao dar um abraço, para além do desânimo que o afetava, percebi o sintoma se deslocar na sua pele vermelha. E isso fez toda a diferença para resolvemos aquele problema de outra forma. Porque a cura não existia, e o tempo não era dinheiro.



One month in the countryside
[Eleni Karaindrou]
"Unreleased recordings" (1990) 


as flores são do tamanho dos passos.
e em cada pétala há uma imagem.
e em cada imagem um ninho
que é possibilidade e átomo.

Espasmos? Não, filosofia de vida.
E como dói. 

4 - crença

Dizem que o tempo é feito de escolhas. Talvez o tempo seja mesmo feito é de esperas. E o que se espera é o pulso. E para cada pulso, um hiato.Sístole e diástole. Mas acima de tudo, não se tem conhecimento pelo que se espera, uma vez que a frequência não termina. E ela não está num inteiriço que se faz nome. Ela está na curva de uma pulsação. Se um corpo é fragilmente sensível a ponto de sentir algo que não se quer, é sinal de que falta alguma espera.

A crença é o que justifica o som no coração, para além das batidas do coração (tempo das demandas). Isso porque o som no coração não é feito de expectativas. Quando a crença é feita de uma paixão morna, dá-se o alinhamento com aquilo que nenhuma pessoa, livro ou ciência há de saber. E esse é o segredo que cada coração resguarda.
 

                                       Life in a tin 
                                   [ Bruno Bozzetto]
   
5- lembranças

- Acho que lembro de você.
- Eu não poderia dizer que seja recíproco.
- Deixa pra lá.
-Você está me parecendo alguém agora...
- Já conversamos, não vamos nos repetir. Pule pra próxima.
- Se assim deseja...você não é uma escritora?
- Sério, é uma nova perda de tempo, já que não guarda lembrança. Horas conversando por nada. Eu passo. De qualquer forma, obrigada.  
- Não acho que seja "horas conversando por nada". Até porque se há um hiato, deveria, penso eu, ter alguma vontade em redescobrir, porque é no mínimo curioso. Isso para mim me é maravilhoso, algo como o "Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças". Enfim, mas se isso a desagrada, a respeito.
-Parece dispensável demais. Obrigada.
- Não vou mais incomodá-la...agora estou começando a me lembrar de quando sussurrei algo no meio do teu ouvido.
- E se levar um tapa pela invasão? O que faria?
- Foi exatamente o que me disse da última vez. E eu diria algo como "Pensaria que se trata de um caso sério. O que é surpreendente, pois pensava se tratar de algo descompromissado".
- Não me lembro disso ter acontecido.
- E eu diria logo a seguir: "O que fazer se os afetos nos governam? E se é essa a instância do humano?"
- Não me lembro em absoluto. Você está inventando! Adeus.
- E seu dissesse que tenho aqui em mãos um registro do que foi conversado?
- Você teria gravado aquela nossa conversa?
- Ah, então você lembra de mim!
- Você é que não lembrou de mim!
- Na época você disse que teria sido um prazer ter me conhecido.
- Não tenho mais tempo para você. Adeus!
E saía
- Te amo