terça-feira, 20 de junho de 2017

Da série "A provação da luz": Séraphine (2008)




Seuil, 1914. A lua pôs-se a brilhar lá em cima. É possível ver o reflexo na correnteza de um rio. Noite mística. Séraphine desliza as mãos pela superfície de um pequeno afluente e consegue tocar os poros da vegetação ribeirinha. Solfeja qualquer nota delicada na boca. O gesto é de carícia. Se a mão agarra qualquer coisa, logo solta. A natureza passa por ela e ela passa pela natureza, à revelia de tudo e de todos.

Quando o dia começa, Séraphine cumpre as obrigações em silêncio. Foi essa educação que a senhoria lhe ensinou. E para não retrucar a coisa alguma, havia aprendido a esfregar e limpar o chão, as janelas e as roupas. Quem sabe anos, muitos anos havia passado naquelas condições de simplicidade e humildade servil. A senhoria lhe pagava centavos e ela fazia segundo as regras do jogo. Aparentava uns quarenta anos, mas ao certo ninguém sabia direito. Nem mesmo a madre superiora, sua mãe adotiva, talvez soubesse. Séraphine era mais uma, dentre as muitas pessoas que circulam prestando serviços à sociedade. O corpo parecia flácido e moído pelo tempo. Andava revezando os passos de um lado para o outro e talvez, quem saiba, arrastasse os pés no chão, como as pessoas de mais idade costumam fazer. Os olhos azuis, o rosto largo, os cabelos desgrenhados, em referência à cultura européia industrializada do século XIX. O chapéu preto sobre a cabeça, o xale azul a cobrir os ombros e uma cesta na mão direita. Era esse o seu uniforme cotidiano, tipificado na sua condição social. A figura de Grenouille trabalhada por Patrick Süskind em "Perfume" sobe à cabeça:

"Grenouille trabalhava feito um cavalo. Modesto, quase um escravo, efetuava todos os serviços subalternos que Druot lhe ordenava. Mas enquanto ele, aparentemente idiota, remexia, manejava a pá, lavava garrafas, limpava o local de trabalho ou carregava lenha, não escapava à sua atenção nada das coisas essenciais desse ramo de atividades, nada da metamorfose das fragrâncias". p. 186

Discreta e silenciosa, Séraphine não era afeita a conversas. Dizia apenas o necessário, como havia aprendido com a senhoria. E a olhar para o chão. Assim, não se manifestava sobre o caso que o filho tinha com a empregada ou sobre qualquer outra particularidade. Mas Séraphine, assim como Grenouille, não era idiota. De fato, aquilo pouco importava. Ela gostava mesmo era de sair pelo campo, em busca do vento nas folhas das árvores. Tinha um apreço especial pelo vento da árvore que ficava numa elevação. Chegava a subir pelo tronco quase até a copa, só para se sentir inteirada com aquele momento tão seu e de mais ninguém. E mais: fazia de tudo para descalçar as botas, numa espécie de compensação pelas amenidades.

Séraphine é então indicada pela senhoria para atender os novos inquilinos da casa. O andar de baixo é alugado por dois estrangeiros que falam alemão. A casa aparenta não ser muito larga. As paredes descascam, os ladrinhos despencam e o jardim está com a grama alta. Apesar dos apesares, a casa tinha Séraphine por perto, que além de cumprir com as obrigações domésticas, servia a refeição e o chá matinal. Na primeira vez que encontram Séraphine arrumando a cozinha, tomam um susto. Não sabiam que ela estava inclusa no pacote.

A mulher quase sempre viajava e o homem parecia um pouco ocupado na escrivaninha. As pessoas daquela cidade pequena logo suspeitam deles. O que queriam ali naquele povoado? Seriam dois espiões do governo alemão? Os donos dos estabelecimentos queriam escrutinar o menor sinal de diferença neles, algo que pudesse segurar o ombro do vizinho para apontar com o dedo bem alto. "Por ali!", seguido por uma horda de pessoas carregando archotes ou lamparinas cidade adentro.          

Mas uma coisa eles não sabiam: que Séraphine tinha seus mistérios mais profundos. Ela fazia a coleta de materiais esdrúxulos, experimentava diferentes combinações. Sim, ela se sentia imbuída de uma obrigação secreta e mais forte. E em meio a essa obrigação, não tinha tempo para distrações. Por isso, pendurava um cartão na maçaneta da porta indicando que não quer ser perturbada. Por trás daquela porta, batia a certeza dos tons, a simpatia das formas, a reconexão com o mundo.    O compromisso com a obra tem que ser total, até o último suspiro. As pastas feitas a partir daqueles substratos são misturadas com a ajuda de um pincel sobre a superfície do papel ou madeira. Por não ter espaço suficiente em seu cômodo, pintava à luz de velas, no chão. Essa espécie de ritual com a arte lhe garantia um prazer comedido, quase beatífico. Próximo a ela havia uma pequena caixa com a escultura da Virgem Maria. 


Pequenos quadros saem desse contrato com o divino. Consegue retratar tudo aquilo que seus pés um dia lhe puseram em contato. Pintava até perder a consciência do corpo. Era assim o seu insigne e particular gozo com o mundo das intensidades em cores.

No entanto, Séraphine não podia ficar em paz por muito tempo. Um dia alguém calharia não apenas de saber,mas de dedurar (quem sabe a proprietária a quem devia dois meses de aluguel? quem sabe o pároco da aldeia que nem aparece na estória?). A senhoria ficou logo sabendo e, como tal, foi pedir que mostrasse. Assim ela o fez, com um mistura de surpresa e sorriso no canto da boca. Ela poderia finalmente iria confessar a alguém o seu amor pelas cores e formas da natureza.

- É por um acaso um pessegueiro?
- Uma macieira, senhora.
- Não se parece.
- A meu ver, parece uma macieira - retruca o filho da senhoria.
- Os tons não se parecem com os de macieira. Onde já se viu uma macieira desse jeito?
- A meu ver, é uma macieira - reforça o filho, como em tom de provocação. 
-  Não, não é possível... Seráphine volte ao trabalho.

E no final esconde o quadro atrás do sofá.

Por alguma razão, alguém calharia também de informá-la que aquele alemão era um famoso crítico de arte. Foi uma festa. A senhoria quis chamar seus amigos particulares ou aqueles que conseguiram reproduzir o seu gosto e logo veio a ideia de convidá-lo para um jantar. O fato é que não sabiam que o interesse daquele crítico estava em Picasso e na arte moderna, passando ao largo da arte decorativa que tanto agradavam seus olhos. Ele não aguentou tanta mediocridade e precisou se retirar.  Na saída bateu os olhos no quadro escondido e, muito surpreso, ficou sabendo logo que o artista era ninguém menos que Séraphine, a senhora da faxina. É verdade que já havia percebido algo de especial nela, em especial num momento em que ao perceber sua tristeza disse:

- Senhor Orzt, o dia em que você estiver triste, converse com as árvores, os pássaros e as folhas! E logo sua tristeza vai embora. Eu não sei ficar triste. 

No dia seguinte foi ao seu alcance. Tentou uma maior aproximação e ela insistiu nas distâncias. Ela estava ocupada na limpeza. Ele quis mostrar a importância da obra.

- Senhor Orzt, pare de zombar de mim.

E assim a sinfonia entre os dois crescia. Orzt tinha já comprado algumas obras dela e prometia exibi-las numa exposição em Paris. No meio desse processo, a guerra começava. Ele precisava retornar para a Alemanha logo e alguns franceses começavam a lançar ovos podres nas janelas da casa. Naquele momento, essa promessa não era possível de realizar.

Adeus.
Adeus.

Seráphine se isola na pintura. Seu campo de atuação não se restringe mais ao seu diminuto quarto,mas à espaços destruídos, incluindo a casa da senhoria, agora deserta.  

13 anos depois, Orzt morava numa casa de dois andares, no sul da França. Dividia o espaço com sua irmã,a quem lhe acompanhava sempre e um rapaz alemão que pintava e sofria com os sintomas da tuberculose. O rapaz quando ninguém estava em casa, dormia na cama de Orzt, tal qual Tadzio possivelmente teria feito, na cama de Aschenbach. A condição de vida parece mais abastada. Há vários cômodos pela casa, que agora conta com três empregadas francesas. Com o cavanhaque branco, se mostra preocupado com a saúde do rapaz esguio e frágil.

Séraphine retorna aos ciclos da conversa ao descobrir que haverá uma mostra da prefeitura com artistas locais da cidade. É lá que a redescobre como Fênix, mais madura no estilo. Estava claro que era ela naquela parede e que ela havia utilizado novas formas e cores. Se antes havia um grau de semelhança com a natureza morta, agora seu destino é a sensação. Imiscuía na forma analogias afetivas de fino púrpura, em curvas acentuadas e polens delicados Havia substrato ali. Havia vida.

O crítico não tarda a procurá-la. Ela comunica ter abandonado os serviços domésticos por inaptidão. Seu corpo não mais corresponde às demandas. Desde aquela exposição, parece estar conseguindo viver da sua obra. E ele a conduz ao mecenato. A partir daquele momento ela desembesta. Quer o vestido, a casa e o carro. A filha de sua vizinha se torna sua amiga. Ela quem dizia ser guiada por anjos, tal qual se tratasse de um pacto com o divino, isto é, o que não se pode suportar ou o extra-pessoal, agora é interpretado como uma benção, um direito para sua fama e importância. Ela precisa então subir mais, brilhar mais, virar estrela. Mas o tempo passa. Já é 1929. Há uma crise mundial em percurso que o seu santo não conhece. Nesse ínterim, o rapaz adoece novamente. Ele não consegue mais prometer a ela, logo naquele momento de ascensão! A proprietária que mora no andar de baixo, percebe que Séraphine não tem mais cantado, o que significa que não tem mais pintado. Ela a escuta murmurando, cochichando qualquer coisa esquisita.

Num domingo qualquer, Séraphine sai vestida de noiva,a distribuir presentes a todos. Ela é assim internada num leito coletivo. Ela passa a respirar aquele ar sobre quatro paredes, inspecionado por enfermeiras e médicos de plantão. Séraphine, estrangeira do mundo, está estrangeira de si. Há fantasma e dor por toda a parte. Durante uma noite, alguém se põe a mexer no seu cabelo. Ela grita, ameaça bater e é por isso conduzida a uma camisa de força. Séraphine está incomunicável. Sua dor é de uma fissura tamanha, de um vazio como nunca encontrara antes e sob o qual nada é capaz de fazer senão esperar, sem direito para metafísicas.

Orzt reconhece a morte da autora e tenta ser gentil na escolha de um quarto particular, próximo a uma janela e uma porta. Ela, por alguma sorte, consegue abri-la. Lá fora, o vento a chama outra vez. A árvore enorme que antes a acompanhava em mistério e sutileza está logo ali, ao seu lado. O dia é branco, imensamente branco.       




sexta-feira, 19 de maio de 2017

Da série "A provação da luz": Massa estanque (2016)


MASSA ESTANQUE from Nayra Albuquerque on Vimeo.



O curta começa com uma expressão morna tanto sonora quanto visualmente, como se se tratasse de sonhos, mas depois surge um desequilíbrio: as pessoas se estagnam, viram zumbis a céu aberto. E elas marcham, indiferentes, rumo ao nada. Elas estão entupidas de nada e nem espaço chegam a ter para o vazio, para o zero que reconecta um ao outro. E tanto que sangram nas mãos, nas vestimentas e utensílios. Há quem observa a marcha acontecendo do outro lado. Não percebem que é também com eles. 
A visceralidade do noise vai criando tensões bem interessantes. O desfecho é dos melhores, com o vira-lata se alimentando daquilo que sobrou. Experimental, mas bem conciso.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do amor



                                                         Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962



1 - partitura para a valsa para quatro ventos:


Lô. diz a  _Sim_Não_: Sim

_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Não
Lô. diz a   _Sim_Não_: Não
_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. e _Sim_Não_: São


 (pausa)



 pésjuntos                                                                                               p  e  s    
                  
                          p e s 

                                                                     pésjuntos

                     
                        p e s


                                  p   e   s



                                                              p  e  s


                                                                                                           pés_juntos


juntosèp
                                                           pé_juntos
                                                                                                             


pésjuntos



Refrão: Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló / Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló




Velada, a valsa se alimenta de prazeres inconsequentes, prazeres que se projetam laminados, de modo a embeber a superfície caiada do corpo-a-corpo. Com que sabor virá?  


 2 - brilho

- Porque assim a força do hoje-agora, futuro não-mais, poderá reagir de maneira favorável a escapar ou pôr chifres onde não se é esperado ter.
- Eu sei. Pareço ter pouco brilho.
- É que ainda falta você cruzar melhor com o acaso. Aí quando se levanta, o brilho aparece. Assim sentado, a sombra aparece.
- Sei...
- Não sabe que o amor suporta o ódio. A felicidade, a ignorância. O encantamento, o erro?
- E eu preciso de tudo, menos de razão. Alguma razão de que mereça?
- Desrazão com uma pitada leve de amor próprio. Nunca chegou a se sentir?
-  Apago a luz, todas as vezes.
- Alguma vez alguém te forçou a querer?
- Nunca sentiu culpa por algo?
- Os anos que te aguardam parecem querer dizer mais.
- Não sirvo para eles.
- E por que perecer pela fragilidade, se teu corpo é janela e porta? Nunca saboreou a profundidade da pele? A transparência do vaso?
-  Por isso desenho. 
- Veja só! Teu brilho está no alcance de suas mãos. Basta arrancar a pesada cortina de teus aventais, para que a luz possa contaminá-la de traços firmes e diagonais.  
- ...

E mais uma vez a alvorada se fazia chance. Se a vida comia do jeito que comia, havia um corpo que respirava à revelia do mundo exterior. Seria ele finalmente possível?


Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962


3 - dor

Havia me dito que se tratava de algo intratável e inafiançável. Não acreditei. Ao dar um abraço, para além do desânimo que o afetava, percebi o sintoma se deslocar na sua pele vermelha. E isso fez toda a diferença para resolvemos aquele problema de outra forma. Porque a cura não existia, e o tempo não era dinheiro.



One month in the countryside
[Eleni Karaindrou]
"Unreleased recordings" (1990) 


as flores são do tamanho dos passos.
e em cada pétala há uma imagem.
e em cada imagem um ninho
que é possibilidade e átomo.

Espasmos? Não, filosofia de vida.
E como dói.

sábado, 29 de abril de 2017

Da série "A provação da luz": Trem de sombras (José Guerín, 1997)

                                                                              Spiegel im Spiegel
                                                                                 [Arvo Pärt]





Principia uma espécie de romantismo entre quatro paredes. Na proa, um homem retém o tempo pela lente da câmera. Sessenta anos depois alguém o revela. E dentro daquele peito, as imagens jorram uma metafísica monumental. Como o entomologista, o capturador retém na gaveta (que alguns chamam de câmara obscura) um presente que não pode passar senão sem alguma nostalgia ou horror. Porque aberta sessenta anos depois, por mais que se imite ou maquie, não é passível de adaptação. Aqui retomamos ao sonho de Muriel que Adolfo Bioy Casares um dia perpetrou.

Em 24 quadros por segundo, disparam olhares, gestos e presenças alveolares. Pulsa a hipnótica luz sobre o relevo esfumaçado da noite. E a partir dali, algo se afigura, como uma revelação: um homem em seu leito de morte a enxergar um despropósito, uma visão meteórica que o faz sorrir, tolamente. “Aquele instante precisa ser capturado”, começa. Esta é a sina do capturador Gérard Fleury, que ao sair de casa em busca da luz necessária, precisa esgotar a experiência, como se cada segundo daquela família precisasse chorar. Ao fim e ao cabo, a luta de Gérard Fleury contra o esquecimento é vã, pois ele próprio desaparece, tal qual fosse uma projeção de alguém. O capturador, sem saber, criou uma Caixa de Pandora, fazendo de si parte integrante da encantada redoma de vidro.

Apesar da deterioração da película, seja pela guerra ou por um destino particular, aquelas imagens parecem fantasmagorias. E frente a ideia da perda, o navegador solitário José Guerin esmiúça as fendas da imagem granulada, intervindo quando bem entende. As imagens adormecidas carregam bons costumes, aquiescida pela bovina moral cristã, onde tudo parece condimentado em cruz e água benta. Ele pode interferir perversamente sobre o que se quis guardar para sempre, ainda que a realidade fosse completamente outra. O tempo de que a imagem fala é de cristal, e é feito de sonho, invenção e melancolia, como nos filmes de Visconti ou nos livros de Proust. Guerín nos mostra uma infância perdida, a agonia da luz, os rendados de uma memória que agora e para muito torna a correr em quem põe-se a observar a ternura envernizada e enxuta do silêncio.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Em contrachance


                                             Berceuse dos elefantes
                                                   [Walter Franco]
                                               Respire Fundo - 1978

Dedos arqueados alquebram-se sobre a taça de vidro. Um (espaço) outro. Presos. Fixos. Amparados pelo vidro gelado. Mas o toque, aparentemente suave, tem a sua pressão. Marca duas fases. Dois começos intermináveis: o de alçar e o de agarrar. E os dedos sobrevêm com a ansiedade e crescem com o medo. O líquido escuro quase nem tem mais peso, mas a mão está ali, a pressionar as digitais contra o vidro, borrando o quase-agora com o calor dos poros e o gesto das pétalas.
Resiliência alçada aos goles, deitada em sonhos de embriaguez    -    soluçada 


de tempos em tempos)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Poema estéril


Kentucky Avenue
Tom Waits
[Blue Valentine]



Bolhas sob a superfície intata do líquido.

Uma bola quicando o mármore claro.

Pés

Pés no chão a percorrer a volta da chave na fechadura

paredes de pastilhas coloridas ao redor

Cortinas alvas transparecendo o decote apertado das janelas

Pende o braço laço
Perdido abraço
a fraquejar
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus

A blusa branca, perfumada
A calça azul, renovada
A gravata, o relógio, o cadarço

Num amasso rotundo
de longas voltas
e rodeios

no meio da parede um prego enferruja
o desejo de dizer:
"Sísifo só trabalha para estragar a vida dos outros"

Uma da tarde. Hora de partir.
Eu me pergunto: "até quando?"

Uma e dez da tarde.
Silêncio e memória.

Partiram as asas
Restaram as dúvidas
Uma vez mais

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

mortificar


                                                         O vale dos lamentos
                                                         [Theo Angeloupolos]


Ele me dizia para parar com aquilo, que não era algo bonito de se ver. E de fato não era nada agradável estar diante daquele rosto amassado, entupido de mentiras e algumas verdades. Mas a única coisa que eu conseguia retrucar era com aquele corte de ponta fina e macia que o discurso metia em lençóis, quase nunca brancos. Forjava-se a limpeza com olhos de quem se quer varrer todo e qualquer vestígio. Ele me dizia para parar com aquilo,pois aquele movimento de pudim resiliente cheirava a naftalina, quase tão seco quanto o pó fino sobre as coisas e as guimbas de cigarro enviuvadas. Ele dizia aquilo porque conseguia perceber o escorrimento da dor,o fincar das estacas sobre a pele, o desejo fragilizado.Ele sabia que ali antes havia recalque à resistência. E isso por si só o enternecia, à troco de beijo no rosto, palavras sortidas, penteadas. Ele me deixava,finalmente, os restos. E que faziam de mim alguém mais branda e sorridente. Mas que hei de fazer com tantas partes? Seria esta a razão de ser do ridículo?  

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 Dois pontos
dois pontos
Como quem não consegue unir
Dois pontos
dois pontos
caídos de sina, restantes de nome
papel mosca anel


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Aquela porta não tinha uma saída propriamente. Inevitável retorno. Se sobra uma janela na lembrança de quando se comia sabonete, é para se gracejar o tempo de quando dava certo. Mas hoje o compromisso tem mãos de distanciamento, dizem, que quando caem tem um peso tal que pode ser lavado em silêncio de cocktail, pelo mesmo humor com que se divertiu, de cigarro, um bando de nomes bem ditos e quase tão bem traçados com dicção plena quanto uma obra exemplar.

No entanto, estive descompromissado o dia inteiro. E o cansaço trouxe o sono das longas horas.


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 Dois mosquitos postos em lados extremos, no bocal de uma mesma entrada de USB. Dois cadáveres de mosquitos, em pose esquálida. O pó dos móveis como que escondia as duas figuras. Estava embaçada a luz, estava arranhado o olhar, só cisco, seja de pernas de inseto,  fiapo de roupa ou pelos humanos. Pisca renitente o título: "Farrapo humano" e ao contrário do que possa aparecer, o título tem seu manto de veludo.

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Até porque preciso que os outros me compreendam: às 3 preciso estar no lugar Y; às 7 pretendo chegar no restaurante e às 9 ainda planejo passar no mercado. As horas compreendem o que não quero deixar de saber. As horas persistem como um vício antigo que não se quer interrompido, mesmo se inoperante. Porque se quer falar de passado posto em gavetinhas para se puxar. Porque se quer falar em relíquias, em genialidades não compreendidas, e que possam merecer premiações, haja visto o público leigo e ignorante, a quem se oferece a cadeira pra se desistir antes da hora.

O olhar da instituição sorri escuro.
 
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- Como me ausentar da minha mente?

- É o tipo de coisa que você vai tentar descobrir a vida inteira até o momento da sua morte. 

- E se...

- A pertinência da sua resposta está no fato de que o silêncio não existe. A morte cessa a percepção e a mesura. Dali, uma míriade de infinito pode acontecer...se bem que dizem por aí que carregamos pequenas mortes conosco.

-  No final elas se juntam em uma maior?

- A morte é o que proporciona o furo. Assim, morre-se de amor ou de ódio.

- Se eu te dissesse que nesse momento estou menstruada e que me dói o útero e a cabeça lateja, estaria coberta de morte?

-    E de falta, pois as coisas não param de passar.

 - O ideal é não termos ideia disso.

- A ausência abre os caminhos. 

- Mas...então, como me ausentar da minha mente?

- Não está sentindo alguma melhora? 

- Você me cansa.

- Eu te amo. 

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Ao final da noite ela me dizia que doía o útero, que estava exausta do dia tingido a sangue. Aquela discrição, contudo, tinha um silêncio. Descubro o tempo das alergias.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O mundo e o eu





O doce que acabei de mastigar tem um sabor especial. É algo um tanto açucarado que prende na boca, como um rótulo que teimam em dizer. Eu era agora o tempo do próprio tempo em mastigação, sem a qual precisava esquecer, caso não fosse possível tomar uma decisão.

A aposta nascia então como um colar de meu uso. As cores virando carteados, quando engarrafadas em vidro. Aquela alegria tinha fundamentação: era quente, profunda e apoteótica.  Mas não seria possível mais a tensão, o movimento do jogo se não houvesse o que ferir. O mais chocante seria que muitas vezes o corte poderia ser abrupto, após minutos de delicadeza e entendimento, como a guilhotina a cair sobre um pescoço liso. O horror do trauma, seguido pelo esquecimento nas cores encapsuladas.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Da série "A provação da luz": Bagdad Café de Percy Adlon



Desajustes em pulso. Debaixo de um mesmo teto, duas bocas tracejam por uma mesma diretriz. A relação, entretanto, não é das mais serenas. O deserto ao redor é imenso e vazio, apesar da sequência indicar uma intimidade pautada em contrastes muito jocosos em torno de objetos-parafernálias que não funcionam. Ouve-se por repetidas vezes a palavra “Disneylândia” ser pronunciada, mas o ruído é enorme para que faça qualquer efeito. Algo está faltando ali e o convívio tem a contundência dos fracassos. Desengonçada, a imagem encrespa-se de tão chacoalhada, restando, por fim, a figura de uma retirante em sua humildade silenciosa, que prossegue, apesar do peso, apesar do calor, apesar da distância.. A câmera tenta captar esse instante de partida, num slow-motion peculiar e até perverso de tão cerimonioso. O carro sexista dele, de proporções espalhafatosas, passa adiante e ainda zomba derrapando o pneu na areia, bem debaixo do ouvido dela, que nada faz senão avançar. Escorre suor pelo rosto sob um céu de azul que remonta aos versos caeirianos:


"Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois.
Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?"

As pernas balançam, o coração pulsa e ela está novamente só, a empurrar sisificamente a mala pela enorme extensão da estrada asfaltada. A cabeça é baixa, mas o peito exorta coragem. À distância consegue perceber no azul cerúleo dois espaços concêntricos de nuvens, como se…dois olhos fossem. Seria Deus?

Uma caminhonete antiga de cor bege para a meio caminho. Um homem amulatado pergunta se ela não gostaria de uma carona. Ela com muita dificuldade agradece a generosidade e prefere prosseguir viagem por si só, com suas próprias pernas, para onde o destino traçar. Na caçamba, vê-se a garrafa de café também bege mais claro que o marido dela soube descartar da memória. No meio da garrafa o rótulo com o nome da cidade de onde vieram. Nome alemão. O carro parte.

A caminhonete estaciona próximo a um bar que fica localizado perto de um posto de gasolina desativado, no meio da estrada. O local é rústico, feito de madeira e se chama “Bagdad Café”, pelo que o letreiro na fachada do estabelecimento aponta. Ele caminha para o bar, segurando a garrafa de café. No interior do bar, um rapaz estuda piano. O bar está completamente vazio. O barman, naquele momento, ocupa o tempo inserindo agulha por agulha num frasco de vidro. Talvez fosse um método encontrado para passar o dia mais depressa. O homem amulatado mostra o seu novo achado. Diz que encontrou na beira da estrada e, melhor ainda, com café. Comenta acerca da máquina de café ainda à procura de conserto e a importância providencial daquela garrafa térmica, para os dias que se seguiriam. 

O dia torna a passar como as pás de um ventilador em rotação lenta. O mulato sai, caminha sem rumo. Percebe então subitamente um carro saindo da estrada e indo em sua direção. Consegue se esquivar por um triz. O louco sai do carro e segue em direção ao bar. O mulato o segue. No bar, tenta se comunicar com o barman de maneira agitada e pouco útil. Algumas palavras saem desconexas de sua boca, não sem a ajuda de uma mímica gestual. Raul, em Limite,  perguntando por um homem alto e magro. Inútil, mais uma vez inútil. Ele pede então pelo chopp, mas não há chopp ali. Pede pelo café, mas não há café ali. Lembra então da garrafa de café e o serve. O estrangeiro louco se distrai com algo e não percebe a sua garrafa ali. Bebe o café com a mesma pressa de sempre e, por fim, agradece mostrando aos demais um punhado de pó de café. É o que pode deixar como agradecimento. Mostra um modo tosco de aproveitá-lo: levando-o até o nariz e cheirando como quem cheira rapé. E sai. Eles não entendem aquele costume e, como os índios diante da chegada dos europeus, põem-se a imitar a fim de sentir mais de perto aquela estranheza.  

A seguir entra uma mulher magra e amargurada. Os cabelos despenteados, a pose de quem já se cansou da vida. Chega criticando em voz alta o homem amulatado por não ter consertado a cafeteira, por X Y Z. Anda de um canto a outro. Grita ao rapaz que acaba de arriscar alguma partitura de Bach. “Essa música parece máquina de costura!”, diz. E o silêncio se instaura, na estranheza que lhe cabe. Os rostos fechados, o tédio engravatado.

Entra no bar um senhor que tem um lenço vermelho na cabeça, cabelos brancos, sorriso definido. Oferecem a ele o café. Ele arrisca e um gole basta para cuspir o café, querer beber água da bica, passar mal, com todo o exagero expressivo que lhe é facultado pela idade.

Descobre-se que a mulher azeda é a dona do estabelecimento. Mas ela não está mais no bar. Ela foi discutir no lado de fora com o homem amulatado, que agora se revela como sendo seu marido, a quem recebe ordens para que sejam cumpridas. Vê-se que está alterada pela forma como se movimenta, irritadiça, com a desarmonia de cada coisa. Chega a jogar algumas latas amassadas que o vento trouxe até seus pés. Mas a violência que vai, também volta. E tanto que quando a caminhonete parte, desata a chorar lágrimas exaustas, num canto remoto de si. Tudo parece inutilmente condenado a se repetir. “A lágrima clara sobre a pele escura”, como naquela bela canção de Caetano Veloso. 

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Raia mais um dia. No limbo da amargura, a mulher desgrenhada termina por surpreender-se com uma mulher que pergunta, com alguma dificuldade, onde fica a recepção.

 -  Por ali, diz de maneira arrastada, com a mão. 
Empurrando a bagagem com a perna, adentra o recinto bagunçado. A mulher que acabara de recebê-la na porta, troca a guarda consigo mesma e, se dirigindo à mesa, adota um ar mais austero:

- em que posso ajudá-la?

A cliente seleciona a dedo as palavras, como se estivesse preenchendo um caça-palavra. Emperra aqui e ali,mas a mensagem é clara: quer alugar um quarto.

- para quantas pessoas?

- uma…

As reticências dela a surpreende mais uma vez. “Uma gringa num motel de beira de estrada?”

-por quanto tempo? — pergunta com os olhos mais abertos.

E já nem precisa responder: seu cansaço tem a força da indeterminação necessária. “Não está vendo que ela está por inteira ali, tirando umas feriazinhas?”, é a pergunta velada daquele instante.

Claro que a mulher despenteada vira aquela cena num filme policial hollywoodiano. E é claro que aquele olhar de pura desconfiança de cima a baixo é intimidador para a mulher que acaba de chegar. A sensação dela é a mesma dos colonizadores quando chegaram à América.

- Assine aqui, por gentileza.

E se debruça inteiramente sobre o papel, deixando uma assinatura enorme de muitas consoantes repetidas ao mesmo tempo e em grande pompa.

- Adiante o pagamento, por favor — e estica a mão, a fim de novas surpresas. Quem sabe abra a mala repleta de dinheiro sujo, e possa tirar dali o pouco que precisa para a hospedagem? Mas não: ela prefere pagar em cheque europeu.

- O centro da cidade…qual direção?

- Aqui é o centro da cidade.

A estrangeira silencia. Os olhos sem saber o que dizer. Recebe então a chave do quarto.

- Queria falar…com a gerente por aqui…

-Eu sou a gerente disso aqui — e quase dá um murro na mesa. O olhar mais fixo do que prego na parede. E continua:

- E não há pessoas para carregar suas bagagens.

A estrangeira recebe cada frase como uma bagagem a mais. Se despede então em direção ao quarto. A mulher despenteada chega a abrir a janela lateral para melhor examiná-la à distância. “Não é possível que isso esteja acontecendo por aqui”, diz com os pensamentos, pensamentos estes que a estrangeira repete ao chegar no quarto e se deparar com uma pintura de dois círculos concêntricos, similares aqueles que acabara de ver ao caminhar pelo deserto. Talvez esteja no caminho certo.

Voltando ao bar, esbarra com a filha que está de saída com o novo namorado: um rapaz barbudo que dirige uma Harley Davidson. Sim, um qualquer. Era só o que faltava: sua filha sendo mais uma no mundo. Esbraveja então contra a filha namoradeira, contra o filho vagabundo tocador compulsivo de Bach e, sobretudo, contra isso que eles chamam de vida e que não serve para mudar a situação em que se encontra. Por isso não há sinal de golas ou de botão ou qualquer coisa de postura erguida. É como se sua cabeça estivesse constantemente em posição de aríete.

O vidro semi-amarelado pelo tempo, o céu azuláceo e o revestimento da parede marrom não significando nada, além de uma mesma miséria. A estrangeira se aproxima, em silêncio. Abre a porta e senta. Todos a olham. O silêncio é mortal. Pede um café. O barman toma a liberdade de servir o mesmo café horroroso. Ela bebe e nada reclama. A sua preocupação é de outra ordem.

No quarto ao lado ao seu, uma mulher magra e repleta de adornos chinfrins, parece entediada com seu cigarro.
Nada acontece. Nada. Nadinha.

O tempo torna a passar como nos filmes de western americano. Quem sabe no mesmo dia ou vários dias após o ocorrido, a dona presta-se a limpar o quarto da suspeita. Ao entrar, percebe uma coisa diferente; o bastante para que unisse os palitinhos e arregaçasse as mangas da imaginação: viu roupas masculinas penduradas. Sua imaginação correu mais rápido que pôde tal qual houvesse visto um corpo crucificado. Imediatamente larga o aspirador e corre para o telefone preto. Chama o xerife local que em alguns minutos (ou, quem sabe, algumas horas) chega no local. 

Naquele ínterim, a estranha está no quarto, utilizando o aspirador para limpar aquilo que não fora limpo pela dona. Para suportar o calor, estava à vontade. Assim que bateu na porta, pede licença para se aprontar e vai logo de bandeja naquele ritual de tira gostos. Tintim por tintim e nada de errado foi encontrado. O xerife que, com os longos cabelos, mais parece um índio apache, pediu desculpas e se mandou. A dona sentiu-se indefesa perante uma coisa que já estava mais do que evidente. Teve de pedir desculpas ainda que não estivesse completamente convicta se se tratava de algo ridículo ou não. O fato é que o xerife se interessara sim na suspeita, mas não pelo perigo que ela representava ou poderia representar e tampouco pela sua pessoa. Ele estava de olho nas variadas roupas que trazia na bagagem. Roupas femininas como nunca havia experimentado…

Certa vez a estrangeira quis ser generosa para com aquela que a hospedava e assim aproveitou a posse do aspirador de pó e a ausência momentânea da proprietária para pôr em ordem o local: limpou e arrumou o que julgava necessário e até no telhado conseguiu varrer pó. Quando esta chega, assiste a um movimento de renovação que a desagrada profundamente. Vivia um paradoxo que a estrangeira em generosidade espontânea não conseguia entender: repudiava a situação em que vivia, apesar de sentir-se na obrigação de manter a ordem no mesmo lugar, no mesmo desmazelo. A impressão foi como se estivesse lhe roubando o lugar, apagando a uma existência de muitos anos. E por mais que tentasse negar aquilo com penas de pavão, era o que saltava aos olhos. Solta desaforos até ficar sem fôlego.

A etapa final deste processo veio quando soube que havia tido a chance de se aproximar de seus filhos a ponto de levá-los para o quarto e deixá-los à vontade para tocar Bach com um teclado imaginário e vestir suas roupas inusitadas, com tamanha naturalidade. Todos brincavam no quarto daquela estrangeira, criminosa, como se… a amassem maternalmente. Quis fechar então a porta com força, para que pudesse pensar logo no despejo daquelas aporrinhações. Mas justo naquele momento ela pôde se ver por inteira. É o momento em que a porta deixa de se fechar, momento em que os outros cadeados se estalam e caem no chão. E neste vão deixado, germina o primeiro botão. O primeiro após uma década ou mais.

Carrosséis, chaminés, tertúlias, girassóis, de uma só vez. Pela magia, a mortandade vira espaço de aprendizagem e diversão. O pó vira pé. O local lota, a lotação loca em rota de todos os dias. Fartura de palavras e dizeres. Um show de atrações e descobertas desnudas. Tem pra todos aquele bar tão balde a transbordar. Amor por amor, amor por amor, amor por amor. A cegonha, o fruto e o ar de balão a inflar para cima e adiante, para o norte sem nó e por inteiro. Esplendor. Até o marido da proprietária retorna ao perceber aqueles fogos de artifício. Conciliação. A estrangeira e o homem com faixa na cabeça, a namorar alguns atrevimentos em arte. Desnudar.

Por fim, ela precisa partir. Todos pedem que fiquem,mas ela precisa bater o ponto de seu passado fichado e documentado. Aquilo que acabou de demonstrar é imemorial, não tem nome ou dimensão.
Ela parte e deixa lágrima em quem permanece. Apesar da aprendizagem ter sido boa, sem ela a coisa não continua, justamente porque através dela há uma espécie de magia que atrai a atenção e a estima, como o terceiro movimento de Vladimir Martynov:




Os negócios desandam e desaceleram. A mesma poeira, a mesma… E ela retorna, na mesma linha de horizonte que antes, com a mesma inteireza debaixo dos braços. Tempos de disponibilidade,de intimidade. Um ponto aqui e outro acolá que unidos se tornam reta, plenitude e expansão.