sexta-feira, 19 de maio de 2017

Da série "A provação da luz": Massa estanque (2016)


MASSA ESTANQUE from Nayra Albuquerque on Vimeo.



O curta começa com uma expressão morna tanto sonora quanto visualmente, como se se tratasse de sonhos, mas depois surge um desequilíbrio: as pessoas se estagnam, viram zumbis a céu aberto. E elas marcham, indiferentes, rumo ao nada. Elas estão entupidas de nada e nem espaço chegam a ter para o vazio, para o zero que reconecta um ao outro. E tanto que sangram nas mãos, nas vestimentas e utensílios. Há quem observa a marcha acontecendo do outro lado. Não percebem que é também com eles. 
A visceralidade do noise vai criando tensões bem interessantes. O desfecho é dos melhores, com o vira-lata se alimentando daquilo que sobrou. Experimental, mas bem conciso.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do amor



                                                         Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962



1 - partitura para a valsa para quatro ventos:


Lô. diz a  _Sim_Não_: Sim

_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô.: Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Sim
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Sim
Lô. diz a _Sim_Não_: Não
 _Sim_Não_ diz a Lô. : Não
Lô. diz a   _Sim_Não_: Não
_Sim_Não_ diz a Lô.: Não
Lô. e _Sim_Não_: São


 (pausa)



 pésjuntos                                                                                               p  e  s    
                  
                          p e s 

                                                                     pésjuntos

                     
                        p e s


                                  p   e   s



                                                              p  e  s


                                                                                                           pés_juntos


juntosèp
                                                           pé_juntos
                                                                                                             


pésjuntos



Refrão: Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló / Lo Li Lá Lá Lá Lé Lé Ló Ló




Velada, a valsa se alimenta de prazeres inconsequentes, prazeres que se projetam laminados, de modo a embeber a superfície caiada do corpo-a-corpo. Com que sabor virá?  


 2 - brilho

- Porque assim a força do hoje-agora, futuro não-mais, poderá reagir de maneira favorável a escapar ou pôr chifres onde não se é esperado ter.
- Eu sei. Pareço ter pouco brilho.
- É que ainda falta você cruzar melhor com o acaso. Aí quando se levanta, o brilho aparece. Assim sentado, a sombra aparece.
- Sei...
- Não sabe que o amor suporta o ódio. A felicidade, a ignorância. O encantamento, o erro?
- E eu preciso de tudo, menos de razão. Alguma razão de que mereça?
- Desrazão com uma pitada leve de amor próprio. Nunca chegou a se sentir?
-  Apago a luz, todas as vezes.
- Alguma vez alguém te forçou a querer?
- Nunca sentiu culpa por algo?
- Os anos que te aguardam parecem querer dizer mais.
- Não sirvo para eles.
- E por que perecer pela fragilidade, se teu corpo é janela e porta? Nunca saboreou a profundidade da pele? A transparência do vaso?
-  Por isso desenho. 
- Veja só! Teu brilho está no alcance de suas mãos. Basta arrancar a pesada cortina de teus aventais, para que a luz possa contaminá-la de traços firmes e diagonais.  
- ...

E mais uma vez a alvorada se fazia chance. Se a vida comia do jeito que comia, havia um corpo que respirava à revelia do mundo exterior. Seria ele finalmente possível?


Window Water Baby Moving
                                                                    [Stan Brakhage]
                                                                              1962


3 - dor

Havia me dito que se tratava de algo intratável e inafiançável. Não acreditei. Ao dar um abraço, para além do desânimo que o afetava, percebi o sintoma se deslocar na sua pele vermelha. E isso fez toda a diferença para resolvemos aquele problema de outra forma. Porque a cura não existia, e o tempo não era dinheiro.



One month in the countryside
[Eleni Karaindrou]
"Unreleased recordings" (1990) 


as flores são do tamanho dos passos.
e em cada pétala há uma imagem.
e em cada imagem um ninho
que é possibilidade e átomo.

Espasmos? Não, filosofia de vida.
E como dói.

sábado, 29 de abril de 2017

Da série "A provação da luz": Trem de sombras (José Guerín, 1997)

                                                                              Spiegel im Spiegel
                                                                                 [Arvo Pärt]





Principia uma espécie de romantismo entre quatro paredes. Na proa, um homem retém o tempo pela lente da câmera. Sessenta anos depois alguém o revela. E dentro daquele peito, as imagens jorram uma metafísica monumental. Como o entomologista, o capturador retém na gaveta (que alguns chamam de câmara obscura) um presente que não pode passar senão sem alguma nostalgia ou horror. Porque aberta sessenta anos depois, por mais que se imite ou maquie, não é passível de adaptação. Aqui retomamos ao sonho de Muriel que Adolfo Bioy Casares um dia perpetrou.

Em 24 quadros por segundo, disparam olhares, gestos e presenças alveolares. Pulsa a hipnótica luz sobre o relevo esfumaçado da noite. E a partir dali, algo se afigura, como uma revelação: um homem em seu leito de morte a enxergar um despropósito, uma visão meteórica que o faz sorrir, tolamente. “Aquele instante precisa ser capturado”, começa. Esta é a sina do capturador Gérard Fleury, que ao sair de casa em busca da luz necessária, precisa esgotar a experiência, como se cada segundo daquela família precisasse chorar. Ao fim e ao cabo, a luta de Gérard Fleury contra o esquecimento é vã, pois ele próprio desaparece, tal qual fosse uma projeção de alguém. O capturador, sem saber, criou uma Caixa de Pandora, fazendo de si parte integrante da encantada redoma de vidro.

Apesar da deterioração da película, seja pela guerra ou por um destino particular, aquelas imagens parecem fantasmagorias. E frente a ideia da perda, o navegador solitário José Guerin esmiúça as fendas da imagem granulada, intervindo quando bem entende. As imagens adormecidas carregam bons costumes, aquiescida pela bovina moral cristã, onde tudo parece condimentado em cruz e água benta. Ele pode interferir perversamente sobre o que se quis guardar para sempre, ainda que a realidade fosse completamente outra. O tempo de que a imagem fala é de cristal, e é feito de sonho, invenção e melancolia, como nos filmes de Visconti ou nos livros de Proust. Guerín nos mostra uma infância perdida, a agonia da luz, os rendados de uma memória que agora e para muito torna a correr em quem põe-se a observar a ternura envernizada e enxuta do silêncio.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Em contrachance


                                             Berceuse dos elefantes
                                                   [Walter Franco]
                                               Respire Fundo - 1978

Dedos arqueados alquebram-se sobre a taça de vidro. Um (espaço) outro. Presos. Fixos. Amparados pelo vidro gelado. Mas o toque, aparentemente suave, tem a sua pressão. Marca duas fases. Dois começos intermináveis: o de alçar e o de agarrar. E os dedos sobrevêm com a ansiedade e crescem com o medo. O líquido escuro quase nem tem mais peso, mas a mão está ali, a pressionar as digitais contra o vidro, borrando o quase-agora com o calor dos poros e o gesto das pétalas.
Resiliência alçada aos goles, deitada em sonhos de embriaguez    -    soluçada 


de tempos em tempos)

sexta-feira, 10 de março de 2017

Poema estéril


Kentucky Avenue
Tom Waits
[Blue Valentine]



Bolhas sob a superfície intata do líquido.

Uma bola quicando o mármore claro.

Pés

Pés no chão a percorrer a volta da chave na fechadura

paredes de pastilhas coloridas ao redor

Cortinas alvas transparecendo o decote apertado das janelas

Pende o braço laço
Perdido abraço
a fraquejar
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus
adeus

A blusa branca, perfumada
A calça azul, renovada
A gravata, o relógio, o cadarço

Num amasso rotundo
de longas voltas
e rodeios

no meio da parede um prego enferruja
o desejo de dizer:
"Sísifo só trabalha para estragar a vida dos outros"

Uma da tarde. Hora de partir.
Eu me pergunto: "até quando?"

Uma e dez da tarde.
Silêncio e memória.

Partiram as asas
Restaram as dúvidas
Uma vez mais

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

mortificar


                                                         O vale dos lamentos
                                                         [Theo Angeloupolos]


Ele me dizia para parar com aquilo, que não era algo bonito de se ver. E de fato não era nada agradável estar diante daquele rosto amassado, entupido de mentiras e algumas verdades. Mas a única coisa que eu conseguia retrucar era com aquele corte de ponta fina e macia que o discurso metia em lençóis, quase nunca brancos. Forjava-se a limpeza com olhos de quem se quer varrer todo e qualquer vestígio. Ele me dizia para parar com aquilo,pois aquele movimento de pudim resiliente cheirava a naftalina, quase tão seco quanto o pó fino sobre as coisas e as guimbas de cigarro enviuvadas. Ele dizia aquilo porque conseguia perceber o escorrimento da dor,o fincar das estacas sobre a pele, o desejo fragilizado.Ele sabia que ali antes havia recalque à resistência. E isso por si só o enternecia, à troco de beijo no rosto, palavras sortidas, penteadas. Ele me deixava,finalmente, os restos. E que faziam de mim alguém mais branda e sorridente. Mas que hei de fazer com tantas partes? Seria esta a razão de ser do ridículo?  

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 Dois pontos
dois pontos
Como quem não consegue unir
Dois pontos
dois pontos
caídos de sina, restantes de nome
papel mosca anel


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Aquela porta não tinha uma saída propriamente. Inevitável retorno. Se sobra uma janela na lembrança de quando se comia sabonete, é para se gracejar o tempo de quando dava certo. Mas hoje o compromisso tem mãos de distanciamento, dizem, que quando caem tem um peso tal que pode ser lavado em silêncio de cocktail, pelo mesmo humor com que se divertiu, de cigarro, um bando de nomes bem ditos e quase tão bem traçados com dicção plena quanto uma obra exemplar.

No entanto, estive descompromissado o dia inteiro. E o cansaço trouxe o sono das longas horas.


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 Dois mosquitos postos em lados extremos, no bocal de uma mesma entrada de USB. Dois cadáveres de mosquitos, em pose esquálida. O pó dos móveis como que escondia as duas figuras. Estava embaçada a luz, estava arranhado o olhar, só cisco, seja de pernas de inseto,  fiapo de roupa ou pelos humanos. Pisca renitente o título: "Farrapo humano" e ao contrário do que possa aparecer, o título tem seu manto de veludo.

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Até porque preciso que os outros me compreendam: às 3 preciso estar no lugar Y; às 7 pretendo chegar no restaurante e às 9 ainda planejo passar no mercado. As horas compreendem o que não quero deixar de saber. As horas persistem como um vício antigo que não se quer interrompido, mesmo se inoperante. Porque se quer falar de passado posto em gavetinhas para se puxar. Porque se quer falar em relíquias, em genialidades não compreendidas, e que possam merecer premiações, haja visto o público leigo e ignorante, a quem se oferece a cadeira pra se desistir antes da hora.

O olhar da instituição sorri escuro.
 
---

 

- Como me ausentar da minha mente?

- É o tipo de coisa que você vai tentar descobrir a vida inteira até o momento da sua morte. 

- E se...

- A pertinência da sua resposta está no fato de que o silêncio não existe. A morte cessa a percepção e a mesura. Dali, uma míriade de infinito pode acontecer...se bem que dizem por aí que carregamos pequenas mortes conosco.

-  No final elas se juntam em uma maior?

- A morte é o que proporciona o furo. Assim, morre-se de amor ou de ódio.

- Se eu te dissesse que nesse momento estou menstruada e que me dói o útero e a cabeça lateja, estaria coberta de morte?

-    E de falta, pois as coisas não param de passar.

 - O ideal é não termos ideia disso.

- A ausência abre os caminhos. 

- Mas...então, como me ausentar da minha mente?

- Não está sentindo alguma melhora? 

- Você me cansa.

- Eu te amo. 

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Ao final da noite ela me dizia que doía o útero, que estava exausta do dia tingido a sangue. Aquela discrição, contudo, tinha um silêncio. Descubro o tempo das alergias.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O mundo e o eu





O doce que acabei de mastigar tem um sabor especial. É algo um tanto açucarado que prende na boca, como um rótulo que teimam em dizer. Eu era agora o tempo do próprio tempo em mastigação, sem a qual precisava esquecer, caso não fosse possível tomar uma decisão.

A aposta nascia então como um colar de meu uso. As cores virando carteados, quando engarrafadas em vidro. Aquela alegria tinha fundamentação: era quente, profunda e apoteótica.  Mas não seria possível mais a tensão, o movimento do jogo se não houvesse o que ferir. O mais chocante seria que muitas vezes o corte poderia ser abrupto, após minutos de delicadeza e entendimento, como a guilhotina a cair sobre um pescoço liso. O horror do trauma, seguido pelo esquecimento nas cores encapsuladas.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Da série "A provação da luz": Bagdad Café de Percy Adlon



Desajustes em pulso. Debaixo de um mesmo teto, duas bocas tracejam por uma mesma diretriz. A relação, entretanto, não é das mais serenas. O deserto ao redor é imenso e vazio, apesar da sequência indicar uma intimidade pautada em contrastes muito jocosos em torno de objetos-parafernálias que não funcionam. Ouve-se por repetidas vezes a palavra “Disneylândia” ser pronunciada, mas o ruído é enorme para que faça qualquer efeito. Algo está faltando ali e o convívio tem a contundência dos fracassos. Desengonçada, a imagem encrespa-se de tão chacoalhada, restando, por fim, a figura de uma retirante em sua humildade silenciosa, que prossegue, apesar do peso, apesar do calor, apesar da distância.. A câmera tenta captar esse instante de partida, num slow-motion peculiar e até perverso de tão cerimonioso. O carro sexista dele, de proporções espalhafatosas, passa adiante e ainda zomba derrapando o pneu na areia, bem debaixo do ouvido dela, que nada faz senão avançar. Escorre suor pelo rosto sob um céu de azul que remonta aos versos caeirianos:


"Um céu de azul, um pouco baço, umas nuvens brancas no horizonte,
Com um retoque de sujo embaixo como se viesse negro depois.
Isto é o que hoje é,
E, como hoje por enquanto é tudo, isto é tudo.
Quem sabe se eu estarei morto depois de amanhã?"

As pernas balançam, o coração pulsa e ela está novamente só, a empurrar sisificamente a mala pela enorme extensão da estrada asfaltada. A cabeça é baixa, mas o peito exorta coragem. À distância consegue perceber no azul cerúleo dois espaços concêntricos de nuvens, como se…dois olhos fossem. Seria Deus?

Uma caminhonete antiga de cor bege para a meio caminho. Um homem amulatado pergunta se ela não gostaria de uma carona. Ela com muita dificuldade agradece a generosidade e prefere prosseguir viagem por si só, com suas próprias pernas, para onde o destino traçar. Na caçamba, vê-se a garrafa de café também bege mais claro que o marido dela soube descartar da memória. No meio da garrafa o rótulo com o nome da cidade de onde vieram. Nome alemão. O carro parte.

A caminhonete estaciona próximo a um bar que fica localizado perto de um posto de gasolina desativado, no meio da estrada. O local é rústico, feito de madeira e se chama “Bagdad Café”, pelo que o letreiro na fachada do estabelecimento aponta. Ele caminha para o bar, segurando a garrafa de café. No interior do bar, um rapaz estuda piano. O bar está completamente vazio. O barman, naquele momento, ocupa o tempo inserindo agulha por agulha num frasco de vidro. Talvez fosse um método encontrado para passar o dia mais depressa. O homem amulatado mostra o seu novo achado. Diz que encontrou na beira da estrada e, melhor ainda, com café. Comenta acerca da máquina de café ainda à procura de conserto e a importância providencial daquela garrafa térmica, para os dias que se seguiriam. 

O dia torna a passar como as pás de um ventilador em rotação lenta. O mulato sai, caminha sem rumo. Percebe então subitamente um carro saindo da estrada e indo em sua direção. Consegue se esquivar por um triz. O louco sai do carro e segue em direção ao bar. O mulato o segue. No bar, tenta se comunicar com o barman de maneira agitada e pouco útil. Algumas palavras saem desconexas de sua boca, não sem a ajuda de uma mímica gestual. Raul, em Limite,  perguntando por um homem alto e magro. Inútil, mais uma vez inútil. Ele pede então pelo chopp, mas não há chopp ali. Pede pelo café, mas não há café ali. Lembra então da garrafa de café e o serve. O estrangeiro louco se distrai com algo e não percebe a sua garrafa ali. Bebe o café com a mesma pressa de sempre e, por fim, agradece mostrando aos demais um punhado de pó de café. É o que pode deixar como agradecimento. Mostra um modo tosco de aproveitá-lo: levando-o até o nariz e cheirando como quem cheira rapé. E sai. Eles não entendem aquele costume e, como os índios diante da chegada dos europeus, põem-se a imitar a fim de sentir mais de perto aquela estranheza.  

A seguir entra uma mulher magra e amargurada. Os cabelos despenteados, a pose de quem já se cansou da vida. Chega criticando em voz alta o homem amulatado por não ter consertado a cafeteira, por X Y Z. Anda de um canto a outro. Grita ao rapaz que acaba de arriscar alguma partitura de Bach. “Essa música parece máquina de costura!”, diz. E o silêncio se instaura, na estranheza que lhe cabe. Os rostos fechados, o tédio engravatado.

Entra no bar um senhor que tem um lenço vermelho na cabeça, cabelos brancos, sorriso definido. Oferecem a ele o café. Ele arrisca e um gole basta para cuspir o café, querer beber água da bica, passar mal, com todo o exagero expressivo que lhe é facultado pela idade.

Descobre-se que a mulher azeda é a dona do estabelecimento. Mas ela não está mais no bar. Ela foi discutir no lado de fora com o homem amulatado, que agora se revela como sendo seu marido, a quem recebe ordens para que sejam cumpridas. Vê-se que está alterada pela forma como se movimenta, irritadiça, com a desarmonia de cada coisa. Chega a jogar algumas latas amassadas que o vento trouxe até seus pés. Mas a violência que vai, também volta. E tanto que quando a caminhonete parte, desata a chorar lágrimas exaustas, num canto remoto de si. Tudo parece inutilmente condenado a se repetir. “A lágrima clara sobre a pele escura”, como naquela bela canção de Caetano Veloso. 

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Raia mais um dia. No limbo da amargura, a mulher desgrenhada termina por surpreender-se com uma mulher que pergunta, com alguma dificuldade, onde fica a recepção.

 -  Por ali, diz de maneira arrastada, com a mão. 
Empurrando a bagagem com a perna, adentra o recinto bagunçado. A mulher que acabara de recebê-la na porta, troca a guarda consigo mesma e, se dirigindo à mesa, adota um ar mais austero:

- em que posso ajudá-la?

A cliente seleciona a dedo as palavras, como se estivesse preenchendo um caça-palavra. Emperra aqui e ali,mas a mensagem é clara: quer alugar um quarto.

- para quantas pessoas?

- uma…

As reticências dela a surpreende mais uma vez. “Uma gringa num motel de beira de estrada?”

-por quanto tempo? — pergunta com os olhos mais abertos.

E já nem precisa responder: seu cansaço tem a força da indeterminação necessária. “Não está vendo que ela está por inteira ali, tirando umas feriazinhas?”, é a pergunta velada daquele instante.

Claro que a mulher despenteada vira aquela cena num filme policial hollywoodiano. E é claro que aquele olhar de pura desconfiança de cima a baixo é intimidador para a mulher que acaba de chegar. A sensação dela é a mesma dos colonizadores quando chegaram à América.

- Assine aqui, por gentileza.

E se debruça inteiramente sobre o papel, deixando uma assinatura enorme de muitas consoantes repetidas ao mesmo tempo e em grande pompa.

- Adiante o pagamento, por favor — e estica a mão, a fim de novas surpresas. Quem sabe abra a mala repleta de dinheiro sujo, e possa tirar dali o pouco que precisa para a hospedagem? Mas não: ela prefere pagar em cheque europeu.

- O centro da cidade…qual direção?

- Aqui é o centro da cidade.

A estrangeira silencia. Os olhos sem saber o que dizer. Recebe então a chave do quarto.

- Queria falar…com a gerente por aqui…

-Eu sou a gerente disso aqui — e quase dá um murro na mesa. O olhar mais fixo do que prego na parede. E continua:

- E não há pessoas para carregar suas bagagens.

A estrangeira recebe cada frase como uma bagagem a mais. Se despede então em direção ao quarto. A mulher despenteada chega a abrir a janela lateral para melhor examiná-la à distância. “Não é possível que isso esteja acontecendo por aqui”, diz com os pensamentos, pensamentos estes que a estrangeira repete ao chegar no quarto e se deparar com uma pintura de dois círculos concêntricos, similares aqueles que acabara de ver ao caminhar pelo deserto. Talvez esteja no caminho certo.

Voltando ao bar, esbarra com a filha que está de saída com o novo namorado: um rapaz barbudo que dirige uma Harley Davidson. Sim, um qualquer. Era só o que faltava: sua filha sendo mais uma no mundo. Esbraveja então contra a filha namoradeira, contra o filho vagabundo tocador compulsivo de Bach e, sobretudo, contra isso que eles chamam de vida e que não serve para mudar a situação em que se encontra. Por isso não há sinal de golas ou de botão ou qualquer coisa de postura erguida. É como se sua cabeça estivesse constantemente em posição de aríete.

O vidro semi-amarelado pelo tempo, o céu azuláceo e o revestimento da parede marrom não significando nada, além de uma mesma miséria. A estrangeira se aproxima, em silêncio. Abre a porta e senta. Todos a olham. O silêncio é mortal. Pede um café. O barman toma a liberdade de servir o mesmo café horroroso. Ela bebe e nada reclama. A sua preocupação é de outra ordem.

No quarto ao lado ao seu, uma mulher magra e repleta de adornos chinfrins, parece entediada com seu cigarro.
Nada acontece. Nada. Nadinha.

O tempo torna a passar como nos filmes de western americano. Quem sabe no mesmo dia ou vários dias após o ocorrido, a dona presta-se a limpar o quarto da suspeita. Ao entrar, percebe uma coisa diferente; o bastante para que unisse os palitinhos e arregaçasse as mangas da imaginação: viu roupas masculinas penduradas. Sua imaginação correu mais rápido que pôde tal qual houvesse visto um corpo crucificado. Imediatamente larga o aspirador e corre para o telefone preto. Chama o xerife local que em alguns minutos (ou, quem sabe, algumas horas) chega no local. 

Naquele ínterim, a estranha está no quarto, utilizando o aspirador para limpar aquilo que não fora limpo pela dona. Para suportar o calor, estava à vontade. Assim que bateu na porta, pede licença para se aprontar e vai logo de bandeja naquele ritual de tira gostos. Tintim por tintim e nada de errado foi encontrado. O xerife que, com os longos cabelos, mais parece um índio apache, pediu desculpas e se mandou. A dona sentiu-se indefesa perante uma coisa que já estava mais do que evidente. Teve de pedir desculpas ainda que não estivesse completamente convicta se se tratava de algo ridículo ou não. O fato é que o xerife se interessara sim na suspeita, mas não pelo perigo que ela representava ou poderia representar e tampouco pela sua pessoa. Ele estava de olho nas variadas roupas que trazia na bagagem. Roupas femininas como nunca havia experimentado…

Certa vez a estrangeira quis ser generosa para com aquela que a hospedava e assim aproveitou a posse do aspirador de pó e a ausência momentânea da proprietária para pôr em ordem o local: limpou e arrumou o que julgava necessário e até no telhado conseguiu varrer pó. Quando esta chega, assiste a um movimento de renovação que a desagrada profundamente. Vivia um paradoxo que a estrangeira em generosidade espontânea não conseguia entender: repudiava a situação em que vivia, apesar de sentir-se na obrigação de manter a ordem no mesmo lugar, no mesmo desmazelo. A impressão foi como se estivesse lhe roubando o lugar, apagando a uma existência de muitos anos. E por mais que tentasse negar aquilo com penas de pavão, era o que saltava aos olhos. Solta desaforos até ficar sem fôlego.

A etapa final deste processo veio quando soube que havia tido a chance de se aproximar de seus filhos a ponto de levá-los para o quarto e deixá-los à vontade para tocar Bach com um teclado imaginário e vestir suas roupas inusitadas, com tamanha naturalidade. Todos brincavam no quarto daquela estrangeira, criminosa, como se… a amassem maternalmente. Quis fechar então a porta com força, para que pudesse pensar logo no despejo daquelas aporrinhações. Mas justo naquele momento ela pôde se ver por inteira. É o momento em que a porta deixa de se fechar, momento em que os outros cadeados se estalam e caem no chão. E neste vão deixado, germina o primeiro botão. O primeiro após uma década ou mais.

Carrosséis, chaminés, tertúlias, girassóis, de uma só vez. Pela magia, a mortandade vira espaço de aprendizagem e diversão. O pó vira pé. O local lota, a lotação loca em rota de todos os dias. Fartura de palavras e dizeres. Um show de atrações e descobertas desnudas. Tem pra todos aquele bar tão balde a transbordar. Amor por amor, amor por amor, amor por amor. A cegonha, o fruto e o ar de balão a inflar para cima e adiante, para o norte sem nó e por inteiro. Esplendor. Até o marido da proprietária retorna ao perceber aqueles fogos de artifício. Conciliação. A estrangeira e o homem com faixa na cabeça, a namorar alguns atrevimentos em arte. Desnudar.

Por fim, ela precisa partir. Todos pedem que fiquem,mas ela precisa bater o ponto de seu passado fichado e documentado. Aquilo que acabou de demonstrar é imemorial, não tem nome ou dimensão.
Ela parte e deixa lágrima em quem permanece. Apesar da aprendizagem ter sido boa, sem ela a coisa não continua, justamente porque através dela há uma espécie de magia que atrai a atenção e a estima, como o terceiro movimento de Vladimir Martynov:




Os negócios desandam e desaceleram. A mesma poeira, a mesma… E ela retorna, na mesma linha de horizonte que antes, com a mesma inteireza debaixo dos braços. Tempos de disponibilidade,de intimidade. Um ponto aqui e outro acolá que unidos se tornam reta, plenitude e expansão.     

domingo, 11 de setembro de 2016

Alienada

                  Valencia [Henri Cartier Bresson] - 1933


Mesa de bar, na calada da noite. Alguém suspira próximo da parede. Tem uma das mãos segurando a cabeça, como se enguiçada estivesse. Do outro lado do cômodo, a tevê ligada noticiava o mesmo canal de sempre, num looping acabrunhante que resseca qualquer lágrima necessária.


— basta que sejamos todos mal-amados.
 — o que faz para banir a história da sua vida?
 — isso já não será uma preocupação minha.
 — estava pensando em uma criatura humana…
 — morro sem deixar descendentes.
 — é um convite?
 — foi só para se esclarecer. achei que não viria a ser o caso.

Montava assim diálogos em frases coletadas. Às vezes sobrevoava ditos populares,como em Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Era o que queria ler, naquele momento. Mas sentia que, no fundo, lia como quem confere só e ferida, no ferro. E pasma ficava em ter inventado algo tolo.
Quis pedir um doce no balcão e o único que conseguiu comprar foi uma mar-me-la-da, bem soletrada. Assim compunha o vazio que lhe sobrava.

                                               …

 A anônima estranhamente se reconhecia pelas mãos vazias.
  

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Retratação


 Pair IV 
[John Stezaker]
 2007



O retrato dela
-
O silêncio nosso

— — — —

da vez quando meu peito ardia tua mão, deitando fora lençol, fronha e avental, eu me atraía a misturar o calor da aceitação, pelos pés desavisados das excitações. Na arritmia das alvoradas, o vôo imbricava tempos distintos, ante a qualquer soluço. E de tão imbricado vinha que o sabor tingia um quê de vontade desajuizada.

Agora, sabatinado, percebia que jogatinava um desejo de plena e imediata realização, que esse papo de voragem é vida de papel na mão, pois que de tão fino o assunto faz querer ventilar qualquer coisa opaca e travestida de azul




E assim deixou de me interar pelo marulho que me recorda o mar: sinuoso de sina, carcomido. A quem resta, afinal, o fino grão?


 “O que se alegra com a verdade é semelhante a alguém cuja casa 
se incendiou e que, ferido pelo dissabor no fundo do coração, 
começa, no entanto, a construir uma nova casa. 
E para cada tijolo novo assentado, 
o coração dele se enche de alegria” 
(Martin Buber)


Abro algum livro com correspondências. Acaricio a impressão num papel vegetal. Grafou-se em preto os dizeres, como um parafuso atarraxado. Do muito que se atarraxa por aí, esse é o mais tenro, na medida em que reestabelece o espaço branco das aflições a partir da infusão lírica de um tempo qualquer. Não está, portanto, afeito a prazos, cronologias ou históricos. É intemporal na atenção veiculada e por isso suporta qualquer levantar de cabeça. Amorosa frigidez das alegrias mínimas, fantasiadas de vime, algodão e tapetes persas.


Mas meu corpo me desgoverna ao trazer de volta o passado imperfeito, as urgências preenchidas e logo sistemáticas.

 








                            Limite [Mário Peixoto] — 1931



À sombra de dois gravetos, a cintilação do olhar nada significa.



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A palavra que te faltou naquele dia, fez de si um simpático intrincamento de visões fechadas. Ela te falhou em ato e atitude, revelando em mim uma incompletude perturbadora. Meus dedos nunca estiveram tão à frente, com as falanges abertas tantalicamente. E não à toa transpirei acordes frouxos de uns ponteiros amargurados, enquanto estive à espera disso que não tinha nome a princípio e que foi comido, devorado.



                                            "Qué pobre soy en el océano de la emoción. 
Pero me alegro, pues pienso que sólo el pobre 
es capaz de apartarse, desdeñoso, del angosto 
yo para perderse en algo mejor, en lo flotante que nos 
hace felices, en el movimiento que no se detiene, en algo sublime 
que crece siempre, en lo universal que tremola, en lo común que jamás se 
extingue, que nos sostiene hasta que desee enterrarnos en paz." (Robert Walser)


E por isto pergunto mais uma vez: onde está a paz que nos enterra?

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Lembro do último novelo branco a mim confiado, cuja cor peguei na palma. Tinha uma brancura sempiterna e isenta de paz, e que nos pôs num aperto palpitante. À luz de nossa sibarita vontade sobrevinha o corpo como imagem do cosmos, em confluências de correntes estelares, sanguíneas e nervosas. Ardia a pedra como quem entrelaçasse bodas alquímicas, fazendo falar espécies nunca ouvidas. Tudo isto a nossa incidência e que agora se reduz a pinheiro, campo e sol no horizonte…ao menos enquanto o sorriso no canto da boca se definir.
 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Um cigarro, me faz favor?


"Processing Unit"
[Jóhann Jóhannsson]
IBM 1401, A User’s Manual
2006


Foi durante o almoço que percebi. Havia passado meses longe de casa e nas vezes em que aparecia, nunca me dava conta. Ele me olhava de frente e sempre com algo mastigado na boca para dizer. Na maior parte das vezes sobre a vida que eu levava.

- Está chovendo estes dias por lá? — enquanto desferia com a colher um corte sobre o inhame.

Geralmente eu desvencilhava com alguma resposta curta ou sorriso tímido. Entre uma mastigada e outra, as bochechas afrouxavam a musculatura do rosto magro, o que, por sua vez, impunha dignidade ao cabelo ralo nas laterais. Não se via muito dos dentes por conta dos lábios curtos enrugarem qualquer coisa de ameixa, qualquer coisa de melaço bem chupado. Pois bem, lá estava ele a cortar o inhame com aquela colher de metal, com olhos bovinos à frente. A parte dura do inhame como garantia de um cotidiano possível, bastando um empurrãozinho com o polegar e o indicador para baixo.

O fato é que enquanto pousava a mão esquerda na mesa, ele não a pousava inteiramente...

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 — Nem dá pra sentir o gosto da folha — ouvi a voz feminina comentar, seguido de um riso nervoso. 

Raspava o fundo do prato com a colher, no quarto ao lado. 
 
No banheiro, a torneira gotejando.
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 Ele havia adormecido minutos atrás com o braço debaixo do travesseiro. Mas se algum barulho escorregasse para debaixo dos pés, era inevitável o suspiro quase tão vago quanto o mundo lá fora:

- Bem, está por aí?

 E lá escapulia o tempo outra vez.

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 Sentado na pedra à beira-mar, não conseguindo fixar a atenção no horizonte, presta a falar:

 — Quando voltará para casa?
 — Quarta. Caso contrário, quinta.
 — E como estão as aranhas lá?
 — Não estão. Você cisma que lá tem aranhas!

 Deixa aberto aquele sorriso que até os olhos frisa. A mesma coisa quando assiste a um filme que o comove; não à toa gostasse dos filmes baseados em fatos reais. Só nestes tipos consegue apontar com os dedos a imaginação e encantar a memória das lutas garrafais. Daí o desgosto pelos desarranjos, sejam eles intestinais ou cerebrais. Com o entorpecimento do corpo ou um braço sobre a cabeça arma a resistência numa desistência muito particular: bastam dez minutos e logo se sabia que não ia bem das pernas.  
Como precisava se agarrar a algo para enfrentar as contradições, absorvia muito depressa. Basta que alguém coloque caraminholas na sua cabeça sobre alguma enfermidade que sentia ou desejava sentir naquele momento, para imediatamente esbranquiçar a boca e fragilizar os movimentos vitais. Criatura em flor, de barro.

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 Nas madrugadas insones, liga a tv, dando início a algum encaixe perfeito. Com os braços esticados, monta e desmonta o mecanismo das máquinas multiprocessadoras, não sem antes empurrar com alguma força até o derradeiro ‘clic’. Caso não funcionasse, encaixa aquele seu óculos de metalúrgico a fim de deitá-la sobre seus pés. Em casos extremos às séries de incursões acidentais, mordia a extremidade das hastes, tal qual os homens maduros em plena reflexão. Só o relógio na parede parecia lhe roubar a lucidez daqueles momentos tão intensos e ao mesmo tempo tão banais. Tudo que precisava fazer era pôr em circuito o tráfego daquela energia e deixar o tempo conduzir as braçadas de seus amanhãs.

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 Naquele dia todos que estavam em casa passaram mal. Quiçá tivéssemos comido algo estragado naquela sopa de legumes. Ele mais uma vez com o braço pendido sobre a cabeça, com o olhar fragilizado e os chinelos a arrastar sobre o chão. Alegava também estar tonto o suficiente para que pudesse ficar deitado. Eis a última coisa que gostava de fazer. Mesmo deitado precisava de algum jeito dar utilidade àquelas mãos calejadas e graúdas, algo que pudesse fazê-lo acreditar no divino das essências, na metafísica das existências, no culhão das metonímias, sem abandonar evidentamente a parte judicativa. Talvez por isso fornicasse nos leites condensados, nos doces de leite, nos doces sobre doces do chocolate caramelizado. E assim sendo concretizava aquilo que o mundo há muito furta.

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 Naquele dia, ele precisava conter a mão esquerda. Do mesmo modo precisava conter algumas dúzias de minutos durante o uso dos mictórios e, principalmente, conter as tonturas desavisadas. Porque precisava trabalhar. Porque não tendo a quem confiar senão a uma pessoa, acreditava no futuro. A relação que podia traçar entre suas verdades românticas, alheias à facebook e ao sistema de moda, tinha o tamanho da curvatura de seu coração nas palmas das mãos. E com tanto afinco que dificulta aquilo que meus olhos contam, como se a luta apenas estivesse começando.

sábado, 23 de julho de 2016

Alguma coisa




"O vazio é um lençol branco", disse. Ela, sem querer acreditar, virou as costas e permaneceu naquele silêncio tão seu. Mais adiante o sol nascia no horizonte com uma clareza que não parecia terrena.
"Talvez a angústia", ela me disse e saiu de cena.

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A cegonha do amor pode aproximar-se,mas não chega. Pousa no peitoril à espera de um humor que possa salvar. Permanece batendo com o polegar no lábio, sem muito alento. Se reclama das dores do parto, é para dizer que há muito silêncio embrulhado para presente e  os ruídos estão por toda a parte. 

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Camada pós camada, doura a superfície lisa e quase escorregadia daquele rosto tão desavisado de tudo. Abertos os olhos, o maxilar afrouxa, permitindo o balbuciar de um som rápido e rasteiro, algo em torno de uma dúvida ou de um comentário ingênuo e nem sempre ouvido. Reclama da vida como quem arqueja alguma miséria naquele virar de cabeça. Acusa o trabalho, a dor no pé direito, o mal-estar da azia, só para dizer que o nada importa e que não gosta de arriscar.

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Estala o torcicolo pelos dedos que se querem curvos sobre pilhas e mais pilhas de papéis amassados. Instila abertamente uma vontade de se rir daquele mundo, pelo exato desperdício da vida a mostrar o excesso, de modo tão inútil. Como quem referenda um certo desinteresse pelo amanhã, fumega uma velha canção carcomida de indecisões ribeirinhas. Sem querer afirmar o sonho das montanhas em cor, caminha sem se importar a coisa alguma que não seja da ordem de dois sóis.

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de que adianta o sumidouro, se o desejo não for fome e tesão?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

castelo de cartas



Prelúdio para quarteto de cordas
[Toshiro Mayuzumi]
1967
Interpretação: La Salle Quartet



"Não", disse.

E do silêncio fez-se ouvir uma respiração demorada e pouco nítida. Diante de si, um rio passava escorrendo pelas pedras. Ele media o movimento de seus desejos no fundo da retina, pulsando um meio-lá-meio-cá que mais parecia nervura sobressaltada. À meio caminho, entre a indecisão e a possibilidade, sopesava os sentimentos com a força das impressões ainda tão frescas. Fora surpreendido com a resposta vinda daquela boca que um dia tantas promessas de amanhã lhe trouxe.

Segurou nos punhos a areia que o mar deixara secar e, distante das ostras e algas marinhas, assentiu, senão com alguma ressalva. Para ele, aquilo não passava de uma pretensão ressequida, cuja privação lhe obsedava.

Absorvia nele um desejo de barro fofo, repleto de raízes claras ziguezagueantes, no qual pudesse despir as cenas da cabeça em volúpias táteis de presenças e caminhos. "Contato sem contrato", dizia erguendo os olhos. Plainava sobre o solo agreste do agora, sem sombra de possibilidade. A partir de agora não poderia mais afogar aquelas delicadezas de vez em quando, na espera pelo silêncio dos amanheceres. Estava decidido. "Não", a palavra calcada em cinza, amortecida pelo entendimento. Finalmente ela pregava o xeque-mate, pondo fim àqueles carteados.



                            Phototheque imaginaire de Shuji.Terayama: les gens de la famille Chien Dieu
                                               [Shûji Terayama]


Macabro o corpo que pula sobre os passos do outro, se fazendo de obstáculo, entrave ou garra.
Que faz do punhado de imagens estilhaçadas, os espaços órfãos e reclusos da existência,
uma redoma de vidro cortante no qual o coração, sem marcapasso, bate, bate, bate em um passado só e bem socado.